
Jovens não confiam em CEOs que lideram a corrida da IA
Levantamento da CNBC com o Generation Lab mostra que a maioria dos americanos de 18 a 34 anos desconfia de nomes como Sam Altman, Elon Musk e Dario Amodei, e quase metade acredita que a IA vai prejudicar sua carreira.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Uma pesquisa, um voto de desconfiança
Imagine perguntar para o motorista de um ônibus se ele confia na empresa que fabricou o veículo. Pois foi mais ou menos isso que a CNBC fez, em parceria com o instituto Generation Lab, ao perguntar a jovens americanos o que eles pensam de quem está no volante da inteligência artificial. A resposta, em bom português: eles não confiam nem um pouco.
O levantamento ouviu 1.088 americanos de 18 a 34 anos e perguntou, nome a nome, sobre a confiança em líderes de empresas ligadas à IA. O resultado é um retrato de desconfiança generalizada: 81% disseram desconfiar de Alex Karp, CEO da Palantir; 79% desconfiam de Peter Thiel, presidente da mesma empresa; 76% não confiam em Dario Amodei, CEO da Anthropic; e 74% rejeitam Sundar Pichai, CEO da Alphabet (dona do Google). Nomes mais populares, como Mark Zuckerberg (Meta), Sam Altman (OpenAI), Elon Musk e Jensen Huang (Nvidia), aparecem na pesquisa com índices de desconfiança na casa dos 70%.
O medo não é abstrato: é o emprego
Se a desconfiança nos executivos já preocupa, o dado sobre carreira é o que deveria acender o alerta mais alto. Segundo o levantamento, 45% dos jovens entrevistados acreditam que a IA terá impacto negativo em suas carreiras, contra apenas 10% que veem a tecnologia como uma ajuda. É como perguntar para um time inteiro se o novo técnico vai melhorar o jogo, e a maioria responder que prefere nem entrar em campo.
A pesquisa também captou o humor dessa geração em relação aos rumos da economia sob a influência da IA: 45% descreveram o cenário como "ruim", 27% como "muito ruim" e 6% disseram que "não poderia ser pior". Não é otimismo, é resignação.
Os dois lados da moeda
Vale registrar que a desconfiança nos líderes não significa rejeição total à tecnologia. Outras pesquisas mostram que boa parte dos jovens de 14 a 29 anos usa ferramentas de IA semanalmente — ou seja, adotam o produto mesmo desconfiando de quem o fabrica. É um paradoxo parecido com usar as redes sociais sem confiar nas empresas que as administram: a conveniência vence a desconfiança no dia a dia, mesmo que o discurso público seja de ceticismo.
Para as big techs de IA, o recado é direto: dinheiro em pesquisa e marketing não compra confiança automaticamente. Enquanto os resultados práticos — leia-se, impacto real e positivo no emprego e na renda dessa geração — não aparecerem, o abismo entre quem promete o futuro da IA e quem vai viver nesse futuro tende a crescer.