tech & talk
IA26 de set. de 2026, 16:39

Justiça dos EUA autoriza Pentágono a restringir uso da Anthropic pelo governo

Tribunal de apelações decidiu que o Departamento de Defesa pode manter a Anthropic, empresa por trás do assistente de IA Claude, numa lista de risco à cadeia de suprimentos por ela limitar usos militares do modelo.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

Compartilhar

Um limite contratual em disputa

Imagine comprar uma ferramenta, mas o fabricante trava por software uma função porque teme o uso que se faça dela. Foi mais ou menos essa lógica que a Justiça dos Estados Unidos validou esta semana num embate entre o governo Trump e a Anthropic, dona do assistente de inteligência artificial Claude.

A Corte de Apelações do Circuito de Columbia, em Washington, decidiu por 2 votos a 1 que o Departamento de Defesa (recentemente rebatizado de Departamento de Guerra pelo governo) pode manter a Anthropic classificada como risco à cadeia de suprimentos. Na prática, isso restringe o uso do Claude por agências federais e seus contratados. O relator do voto vencedor, o juiz Gregory Katsas, indicado por Trump, escreveu que o secretário de Defesa levantou uma perspectiva preocupante: "modelos de IA excessivamente restringidos" poderiam "desligar inesperadamente" e assim "causar o fracasso de operações militares importantes".

Foto: reprodução/cnbc.com

De que trava estamos falando

A disputa começou em fevereiro, quando a Anthropic se recusou a liberar o Claude para dois usos específicos: armas autônomas letais e vigilância em massa de cidadãos americanos. É como se a empresa dissesse "o produto é seu, mas essas duas funções eu não libero por princípio". O Pentágono, por sua vez, queria autorização para usar o Claude em "todos os usos legais", sem essas exceções — e argumentou que restrições embutidas no sistema já haviam impedido, mais de uma vez, que o Claude executasse tarefas pedidas por usuários do governo.

Os dois lados da mesma moeda

Aqui mora o cerne do problema, e ele não tem vilão fácil. De um lado, o Pentágono teme depender de um sistema que pode simplesmente recusar uma ordem no meio de uma operação — um risco real quando se fala de contextos militares. Do outro, a Anthropic teme o oposto: dar controle irrestrito de uma IA cada vez mais poderosa sobre decisões letais ou de vigilância em massa. Não é exagero dizer que é a velha discussão sobre até onde vai a autonomia de quem fabrica a ferramenta sobre como ela pode ser usada.

A decisão conflita com uma sentença anterior de um tribunal distrital da Califórnia, o que abre caminho para nova rodada de recursos. A Anthropic afirmou, em nota, que discorda respeitosamente da decisão, mas segue confiante em sua posição e avalia opções, incluindo pedir revisão por todos os membros do tribunal de apelações — ou levar o caso à Suprema Corte.

anthropicclaudepentágonoregulação de iasegurança nacional
Compartilhar