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Mercado20 de ago. de 2026, 10:39

Kalanick capta US$ 1,7 bi para a Atoms e detona quem pagou a conta

Dias após fechar rodada bilionária liderada pela a16z, Travis Kalanick voltou a atacar o venture capital, dizendo que só 1% dos investidores agrega valor real às startups. A ironia não passou despercebida no mercado.

Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado

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O número que importa: 1%

Só 1% dos fundos de venture capital são realmente úteis para as startups que financiam. A conta é de Travis Kalanick, cofundador da Uber, dita em entrevista ao podcast de David Senra publicada no fim de semana. Segundo ele, cerca de 10% dos VCs conseguem ao menos cumprir o padrão mínimo de "não atrapalhar" — o resto, na visão do empreendedor, atrapalha mais do que ajuda.

A declaração ganhou peso porque veio poucas semanas depois de Kalanick fechar uma das maiores rodadas do ano: US$ 1,7 bilhão para a Atoms, sua empresa de robótica industrial, em rodada liderada pela Andreessen Horowitz (a16z). Ben Horowitz, cofundador do fundo, entrou para o conselho da companhia.

Founder é mestre de xadrez, VC é entusiasta

No podcast, Kalanick usou uma analogia direta: o founder é o "mestre de xadrez" que vive o jogo todos os dias, enquanto o investidor é o "entusiasta de xadrez" que aparece de vez em quando para opinar sobre a partida. Questionado sobre por que é tão difícil para investidores se conterem, ele apontou a estrutura de incentivos do próprio ofício: VCs ocupam um assento glamouroso, com poder real e um impulso natural para serem vistos como parte das decisões que moldam o destino da empresa.

O empresário também fez uma autocrítica rara, admitindo erros em relacionamentos durante sua gestão à frente da Uber e reconhecendo que o estilo agressivo que o consagrou não era adequado para uma companhia que chegou a valer US$ 70 bilhões. A fala ecoa a ruptura de 2017, quando Bill Gurley, sócio do Benchmark — um dos fundos que financiaram a Uber —, articulou sua saída do comando da empresa.

Quem ganha e quem perde

Na rodada da Atoms, que também atraiu Bain Capital, Fifth Wall e a própria Uber como investidora, quem ganha é o naipe restrito de fundos que Kalanick classifica como o "1% útil" — a16z à frente, com assento no board via Ben Horowitz. A aposta do fundo é que a Atoms, construída sobre a base da Cloud Kitchens, consiga automatizar setores físicos como alimentação, mineração e transporte com sensores, robótica e IA.

Quem perde, ao menos na narrativa pública, é a maioria dos VCs — retratados como participantes que cobram assento à mesa sem entregar valor proporcional. A crítica de Kalanick, vinda de alguém que acabou de embolsar uma das maiores rodadas do setor de robótica, expõe uma tensão recorrente do Vale do Silício: fundadores que dependem do capital de risco para crescer, mas reservam suas farpas mais duras justamente para quem assina o cheque.


Atualização (19/08, 21:50): Dias após fechar rodada bilionária liderada pela a16z, Travis Kalanick voltou a atacar o venture capital, dizendo que só 1% dos investidores agrega valor real às startups. A ironia não passou despercebida no mercado.

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