
Khanna quer tratado EUA-China para frear corrida por superinteligência
Deputado democrata propõe pacto bilateral com pausas, inspeções e 'botão de desligamento' para IA avançada, enquanto Trump se reúne com CEOs de tecnologia em Washington.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O deputado que quer um tratado de limitação de armas para a inteligência artificial
Na Guerra Fria, americanos e soviéticos assinaram tratados para limitar o número de mísseis nucleares nos arsenais dos dois lados. É mais ou menos essa lógica que o deputado democrata Ro Khanna (Califórnia), hoje o principal democrata no Comitê Seleto da Câmara dos EUA sobre a China, quer aplicar à inteligência artificial. Ele propõe um tratado bilateral entre Estados Unidos e China para conter os riscos da chamada "superinteligência" — sistemas hipotéticos capazes de superar a cognição humana em praticamente tudo.
O que exatamente ele propõe
Em bom português: Khanna quer proibir, dos dois lados, o chamado "auto-aperfeiçoamento recursivo" — quando uma IA passa a melhorar a si mesma sem supervisão humana, um cenário que preocupa pesquisadores por poder acelerar capacidades de forma imprevisível. A proposta inclui ainda uma pausa conjunta no desenvolvimento de superinteligência, protocolos de "kill switch" (botões de desligamento) para modelos avançados e um sistema de inspeções independentes para verificar se os compromissos estão sendo cumpridos. Para dar o exemplo, o deputado enviou cartas a três das principais empresas chinesas de IA — DeepSeek, Alibaba e Moonshot AI — perguntando sobre o preparo delas para lidar com incidentes envolvendo seus sistemas.
Por que agora
O movimento acontece num momento simbólico: o presidente Donald Trump se prepara para receber CEOs de tecnologia e IA em Washington, pouco depois de um encontro com o presidente chinês Xi Jinping na Casa Branca. Khanna vê nisso uma oportunidade — e também um contraste. Enquanto a Casa Branca sinaliza pouco apetite por travas regulatórias, ele argumenta que decisões sobre segurança não podem ficar só nas mãos de quem lucra com o avanço acelerado da tecnologia.
Os dois lados da mesa
A proposta de Khanna não é consenso nem entre democratas: tratados bilaterais de tecnologia são notoriamente difíceis de verificar — ao contrário de mísseis, que se contam por satélite, um modelo de IA pode ser replicado, escondido ou modificado em servidores privados. Empresas do setor, por sua vez, costumam argumentar que regras rígidas demais empurram a inovação para fora do radar público, e não necessariamente a impedem. Ainda assim, o gesto de Khanna marca uma tentativa concreta de tirar a governança de IA do terreno das declarações genéricas e colocá-la em texto de tratado — com prazos, verificação e consequências.