
Kyoto Fusioneering começa a construir peça-chave para usinas de fusão
Startup japonesa inicia a construção do Unity-3, dispositivo que testará a produção de trítio para reatores de fusão, com apoio de verbas do Departamento de Energia dos EUA e do Tennessee.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: a peça que falta em todo reator de fusão
Pra escala humana: imagine construir um carro sem fornecedor de pneus — é mais ou menos a posição em que estão as startups de energia de fusão hoje. Elas sabem confinar plasma a dezenas de milhões de graus, mas quase nenhuma resolveu sozinha como alimentar o reator continuamente com combustível. É essa lacuna que a japonesa Kyoto Fusioneering está tentando preencher, segundo reportagem do TechCrunch publicada nesta terça-feira (11/8).
O que é confirmado
Foto: reprodução/tnecd.com
A empresa começou a trabalhar no Unity-3, um dispositivo que vai testar tecnologia de "breeding blanket" (manta reprodutora) — um envoltório de lítio líquido que absorve calor e nêutrons do plasma e, nessa reação, gera trítio, o combustível raro que os reatores de fusão precisam repor durante a operação. O projeto tem apoio de verbas do Departamento de Energia dos Estados Unidos e do estado do Tennessee, sem valores divulgados pelo TechCrunch. Segundo o site da própria Kyoto Fusioneering e um release do Oak Ridge National Laboratory (ORNL), a parceria público-privada vai erguer o Unity-3 dentro do próprio ORNL, no Tennessee, como parte da plataforma de desenvolvimento de blanket de trítio do DOE. Documentos da agência de desenvolvimento econômico do Tennessee (TNECD) confirmam que a empresa vai transferir sua sede americana para Oak Ridge, com investimento de US$ 46,9 milhões e criação de 51 empregos na região.
O Unity-3 é o terceiro de uma série: o Unity-1 já opera em Kyoto, testando blanket e ciclo térmico, e o Unity-2, focado no ciclo de combustível deutério-trítio, está em construção em Chalk River, no Canadá. Segundo o TechCrunch, mais da metade das startups de fusão hoje planeja recorrer a fornecedores externos como a Kyoto Fusioneering para tecnologias de ciclo de combustível — entre elas Realta Fusion, Thea Energy, Type One Energy e Xcimer Energy, que devem usar dados gerados pelo Unity-3 em seus próprios projetos de reator.
O que ainda é hipótese
Nenhuma usina de fusão comercial está em operação em lugar nenhum do mundo, e o próprio breeding blanket — peça central do Unity-3 — nunca foi validado em condições nucleares realistas, com o fluxo de nêutrons que um reator de verdade produziria. A aposta da Kyoto Fusioneering, hoje avaliada em cerca de US$ 121 milhões em capital captado segundo a consultoria FusionX, é que ela vai virar a fornecedora padrão desse componente antes mesmo de existir um cliente comercial pronto para comprá-lo. Se isso vai se pagar depende de um fator que nenhum comunicado de imprensa resolve: a fusão comercial efetivamente sair do papel na década que as startups prometem.