
Laboratório de motel a US$ 80 ajuda a revelar duas espécies de Paulinella
Com microscópio de hobby e um quarto de motel na Carolina do Norte, uma bióloga descreveu duas amebas fotossintéticas inéditas, batizadas Paulinella marae e Paulinella murrayi.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: as duas novas espécies cabem, inteiras, dentro de uma única célula vista ao microscópio — e foram descritas não num laboratório de universidade, mas num quarto de motel alugado por 80 dólares (cerca de R$ 414) na Carolina do Norte, nos EUA.
O que é confirmado
A bióloga evolutiva Julia Van Etten coletou, em maio de 2021, uma amostra de água salobra numa marisma às margens de uma estrada na região de Outer Banks, na Carolina do Norte. Sem acesso imediato a um laboratório convencional, ela armazenou galões de água e baldes com vegetação de marisma no próprio quarto de motel, montou ali um microscópio de uso amador de US$ 300 (cerca de R$ 1.554) e uma câmera de US$ 198, e passou a analisar o material entre camas e uma placa de "não perturbe" na porta.
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
A investigação, que se estendeu por anos, teve a colaboração de Andrew Willoughby, pesquisador de pós-doutorado na Duke University, e de John Burns, cientista do Bigelow Laboratory for Ocean Sciences — instituto de pesquisa oceanográfica sem fins lucrativos no estado americano do Maine. O resultado foi a descrição de duas espécies inéditas do gênero Paulinella, batizadas Paulinella marae e Paulinella murrayi, diferenciadas pelo tamanho e formato das células e pelo arranjo das escamas de sílica que revestem sua superfície. O estudo foi publicado em 4 de setembro de 2026 no Journal of Phycology, periódico científico dedicado ao estudo de algas. Com as duas novidades, o número de espécies fotossintéticas conhecidas do gênero Paulinella sobe de quatro para seis.
O que é hipótese ou contexto evolutivo
O gênero Paulinella é referência para o estudo da endossimbiose primária — processo pelo qual um organismo incorpora outro e o transforma em parte de si. Segundo a reportagem original, um ancestral de Paulinella teria "engolido" uma cianobactéria há cerca de 100 milhões de anos, convertendo-a numa organela fotossintética própria, o cromatóforo. Esse episódio é tratado como muito mais recente — e por isso mais fácil de rastrear geneticamente — do que a incorporação que deu origem aos cloroplastos de plantas e algas em geral, estimada em 1,5 bilhão de anos atrás. É essa proximidade evolutiva relativamente recente que torna Paulinella um sistema-modelo para entender os estágios iniciais da formação de organelas, embora os detalhes exatos desse processo ancestral continuem sendo reconstruídos a partir de comparações genômicas, não observados diretamente.
Por que importa
O caso de Van Etten também chamou atenção por outro motivo: a improvisação no motel foi descrita como resposta a dificuldades de acesso a estrutura de pesquisa tradicional, evidenciando como projetos de baixo custo — o chamado "Couch Microscopy" — ainda conseguem gerar contribuições relevantes para a taxonomia de microrganismos.