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Ciência06 de nov. de 2026, 07:45

Lançamento da NASA abriu buracos na atmosfera e bagunçou o GPS

Estudo da Universidade Nacional Cheng Kung, em Taiwan, mostrou que o foguete SLS da missão Artemis II causou distúrbios na ionosfera equivalentes a erros de GPS de alguns metros, dez vezes mais intensos que os do Starship.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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O foguete que furou o céu

Em 1º de abril deste ano, o foguete Space Launch System (SLS), da NASA, decolou do Kennedy Space Center, na Flórida, levando a missão Artemis II rumo à órbita lunar. O que poucos perceberam na hora é que o lançamento deixou uma marca na atmosfera terrestre grande o suficiente para interferir em sinais de GPS a milhares de quilômetros de distância, segundo reportagem do Canaltech baseada em um estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters.

O que o estudo taiwanês encontrou

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Nacional Cheng Kung, em Taiwan, liderados pelo professor de ciências da Terra Charles Lin. A equipe usou redes de receptores de GPS instalados em solo — normalmente empregadas para monitorar o deslocamento de placas tectônicas — para medir como a passagem do SLS alterou a densidade de elétrons livres na ionosfera, a camada da atmosfera que começa por volta de 50 quilômetros de altitude. O resultado: dois "buracos" ionosféricos, cada um com cerca de 5 mil quilômetros de extensão sobre o continente americano, um provocado pelo estágio central do foguete e outro pelos acionamentos do motor do estágio superior, que operou a cerca de 185 quilômetros de altitude — dentro da própria ionosfera.

Segundo os pesquisadores, o distúrbio foi até dez vezes mais intenso do que os registrados em voos de teste do foguete Starship, da SpaceX, e equivalente a erros de posicionamento de GPS da ordem de alguns metros. "Um erro de posicionamento de alguns metros é suficiente para fazer um carro autônomo trocar de faixa", disse Charles Lin, em declaração traduzida pelo Canaltech. Ele também destacou a novidade do fenômeno: "Os lançamentos de foguetes da Terra para o espaço produzem esse tipo de efeito, mas nunca vimos esse tipo de manobra orbital em uma missão interplanetária."

Um alerta para as próximas missões

O caso chama atenção porque a margem de erro de poucos metros, que pode parecer pequena, é justamente a faixa que carros autônomos, drones e sistemas de navegação de precisão usam para operar com segurança. Com a NASA planejando novas missões tripuladas à Lua e, no horizonte mais distante, a Marte, os cientistas apontam que esse tipo de distúrbio atmosférico tende a se repetir — e pode ganhar escala conforme os lançamentos se tornem mais frequentes e os foguetes, mais potentes. Por ora, o efeito é temporário e a ionosfera se recompõe, mas o estudo é o primeiro a documentar, com dados de GPS, o tamanho real do rastro que um foguete rumo à Lua deixa no céu.

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