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IA12 de ago. de 2026, 23:44

Livreiros suspeitam que empresas de IA compram e destroem livros raros

Pedidos em massa por títulos obscuros, pagos até cinco vezes acima do preço de mercado, têm deixado livreiros europeus em alerta: eles suspeitam que laboratórios de IA estão escaneando e depois destruindo exemplares raros para treinar modelos.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Um pedido estranho demais para ser verdade

Pense em receber, do nada, um e-mail pedindo mais de 3 mil livros específicos, com uma planilha de códigos ISBN e instruções de frete para a China. Foi o que aconteceu com o livreiro holandês Pieter de Vries, que recebeu essa mensagem de uma suposta funcionária de uma empresa chamada 2077AI. A reação dele foi a mais racional possível: ignorou, achando que era spam ou phishing. Só semanas depois, quando um jornalista o procurou investigando o caso, ele entendeu que a encomenda tinha tudo a ver com treinamento de inteligência artificial.

Não foi só ele

Foto: reprodução/snopes.com

Outros livreiros antiquários na Holanda, Alemanha, Suíça e Espanha relataram pedidos parecidos: lotes de títulos obscuros, publicados antes de 2022, com pagamento de três a cinco vezes o preço normal de mercado. É como se um comprador misterioso estivesse varrendo sebos do continente atrás de qualquer coisa que ainda não tivesse sido digitalizada e usada para alimentar um modelo de linguagem.

O caso que deu nome ao fenômeno

A suspeita ganhou força depois que documentos judiciais revelaram que a Anthropic, dona do Claude, rodou um programa interno batizado de "Project Panama": comprou livros impressos em escala industrial, cortou as lombadas com máquinas de corte hidráulico, escaneou o conteúdo página por página e descartou os originais. A empresa contratou até o ex-responsável por parcerias do Google Books, projeto que décadas atrás encarou batalhas judiciais parecidas e sobreviveu a elas.

Os dois lados da história

De um lado, livreiros e defensores da preservação veem um risco real: se um título raro só existe em poucas cópias no mundo, destruir algumas delas para digitalização pode apagar parte da história editorial, ainda que uma cópia digital sobreviva em algum servidor. É a diferença entre guardar uma fotografia do quadro e queimar a tela original.

Do outro lado, a Anthropic nega que o método envolva livros raros ou antiquários. Segundo a empresa, seus modelos são treinados com uma combinação de dados públicos da internet, bases de dados compradas comercialmente e dados gerados internamente — e nenhum dos seus programas de aquisição de dados teria como alvo obras raras.

O que ainda não se sabe

Os compradores por trás dos pedidos recebidos pelos livreiros europeus, como o da 2077AI, seguem majoritariamente anônimos. Não há confirmação pública de quantos exemplares raros já foram efetivamente destruídos nem de quantas empresas de IA, além da Anthropic, adotam práticas semelhantes.

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