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Ciência09 de out. de 2026, 11:04

Lixo radioativo dos anos 1950 some no fundo do Atlântico, e já há vida nele

Expedição francesa encontrou milhares de barris de resíduos radioativos a mais de 4.700 metros de profundidade no Atlântico Norte e agora investiga se os radionuclídeos já entraram na cadeia alimentar marinha.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: são mais de 3.300 barris de metal espalhados no fundo do mar, a uma profundidade maior do que dez vezes a altura do Empire State Building empilhado na vertical

Entre 1949 e 1982, países europeus despejaram mais de 200 mil recipientes com resíduos radioativos nas planícies abissais do Atlântico Nordeste — uma prática legal e documentada na época, hoje proibida. Passadas décadas, o Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, o CNRS, principal instituição pública de pesquisa científica do país, retomou o mapeamento da área por meio do projeto batizado NODSSUM.

O que é confirmado

Uma primeira missão, em junho de 2025, localizou e mapeou 3.355 barris na região de despejo, a mais de 4.700 metros de profundidade. Uma segunda expedição, em maio de 2026, aprofundou a análise dos recipientes e encontrou containers com forte deterioração — alguns já vazando resíduos diretamente no sedimento do fundo oceânico. Os pesquisadores identificaram quatro radionuclídeos nas amostras coletadas: cobalto-60, nióbio-94, césio-137 e amerício-241, em concentrações acima do nível de fundo esperado na região.

Segundo Javier Escartín, diretor de pesquisa em geologia marinha do CNRS que participou da expedição, os barris já foram colonizados por organismos marinhos, como anêmonas, que se fixaram diretamente sobre os recipientes corroídos. É justamente esse contato que motivou a nova fase da pesquisa: entender se esses organismos funcionam como ponte entre o lixo radioativo e o restante do ecossistema marinho, permitindo que os radionuclídeos entrem na cadeia alimentar.

O que ainda é hipótese

Até o momento, segundo informações do próprio CNRS, os níveis de radioatividade medidos na água e nos sedimentos ao redor dos barris não representam grandes problemas de proteção radiológica para humanos, e não há indicação de risco à cadeia alimentar que chega à mesa das pessoas. Mas essa é uma conclusão preliminar: os cientistas ainda não sabem dizer com segurança se os radionuclídeos já estão sendo absorvidos pelos organismos que colonizam os barris, nem a velocidade com que isso pode se espalhar no ecossistema de profundidade ao longo dos próximos anos. Novas coletas e análises de tecido animal são o próximo passo da pesquisa do NODSSUM.

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