
Londres cruza dados de moradores em situação de rua com IA
A Strategic Insights Tool identifica 91% das correspondências entre registros de abordagem, abrigos e pedidos de moradia, e hoje cobre os 33 distritos da capital britânica.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Uma ferramenta pra seguir a mesma pessoa em sistemas diferentes
Um morador em situação de rua em Londres pode aparecer em três bancos de dados separados sem que ninguém perceba que é a mesma pessoa: o CHAIN, que registra contatos de equipes de abordagem; o In-Form, usado por abrigos e provedores de acomodação; e o H-CLIC, onde os distritos (boroughs) registram pedidos de moradia de emergência. A Strategic Insights Tool, desenvolvida pelo governo de Londres a partir de 2022, junta essas três bases usando correspondência probabilística — um algoritmo que compara nome, data de nascimento e outros dados pra decidir, com um limiar de confiança de 85%, se dois registros são da mesma pessoa.
O piloto começou em junho de 2023 com quatro distritos (Camden, Hillingdon, Lambeth e Westminster) e um produto mínimo viável entregue em apenas seis semanas, segundo o LOTI (London Office of Technology and Innovation), organização que coordena projetos de dados entre as prefeituras da capital britânica. Desde fevereiro de 2024, a ferramenta cobre todos os distritos de Londres e mais 14 provedores de serviços, somando 45 organizações conectadas.
91% de acerto, mas o gargalo não foi a tecnologia
Segundo o próprio LOTI, o sistema acerta cerca de 91% das correspondências genuínas — ou seja, reconhece corretamente quando dois registros de bancos diferentes pertencem à mesma pessoa —, embora a precisão varie conforme a qualidade dos dados que cada distrito envia. A equipe por trás do projeto admite que o desafio maior não foi montar o algoritmo, e sim convencer conselhos municipais, ONGs e prestadores de serviço a compartilhar dados pessoais sensíveis entre si, o que exigiu uma revisão de governança de informação antes da expansão.
Nenhuma das fontes traz o valor investido no desenvolvimento nem detalha quem audita o uso desses dados sensíveis depois que saem das mãos de quem os coletou — perguntas que valem pra qualquer cidade que pense em copiar o modelo. O caso de Londres mostra que rastrear a trajetória de uma pessoa entre a rua, o abrigo e o pedido de moradia pode ajudar a medir se as políticas públicas funcionam, mas também reabre a discussão sobre limites do compartilhamento de dados sociais entre governo e terceiros — um debate que cidades brasileiras que digitalizam a assistência social também vão precisar enfrentar.