
Maior ameaça à rede elétrica ainda é humana, não a IA fora de controle
Especialistas dizem que o medo de IA autônoma atacando usinas distrai de um problema mais velho: infraestrutura de energia operando com falhas básicas de segurança há décadas.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
Casos recentes de modelos de IA "alucinando" ordens ou sendo usados por hackers acenderam um alarme sobre inteligência artificial autônoma atacando infraestrutura crítica. Mas especialistas que acompanham o setor de energia dos Estados Unidos dizem que o risco real segue sendo mais banal: reatores nucleares americanos têm em média 44 anos de operação, e os sistemas de tecnologia operacional (OT) que controlam usinas e redes de distribuição recebem atualizações apenas a cada trimestre ou ano — um ritmo incompatível com a velocidade das ameaças digitais atuais.
"Um ser humano mal-intencionado pode usar essas ferramentas para ser melhor do que naturalmente seria (...) o modelo de linguagem já leu os manuais e sabe o que fazer", diz Joshua Corman, do Institute for Security and Technology, organização de pesquisa em políticas de cibersegurança. Rob Denaburg, da American Public Power Association, entidade que representa 2.000 distribuidoras municipais de energia nos EUA, resume: "com IA ou sem IA, no fim do dia continua sendo um ciberataque".
Quem é afetado
O Departamento de Segurança Interna dos EUA já alertou para atores ligados ao Irã mirando infraestrutura americana. E o risco deixou de ser hipotético: entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, a empresa de segurança industrial Dragos documentou o que classificou como o primeiro ataque assistido por IA contra infraestrutura crítica — uma tentativa de invasão a uma companhia de água e drenagem em Monterrey, no México. Os invasores usaram o modelo Claude, da Anthropic, para planejar a intrusão e criar ferramentas maliciosas, e modelos da família GPT para processar dados e redigir textos em espanhol. A invasão ao sistema de controle da água falhou, mas mostrou como a IA comercial reduz a barreira técnica para atacar esse tipo de alvo.
O que fazer agora
Operadoras de infraestrutura crítica de energia e água podem priorizar:
- Atualizar sistemas de tecnologia operacional em ciclos mais curtos que o trimestral/anual atual;
- Segmentar redes de TI e OT para que uma credencial vazada não chegue direto ao sistema de controle;
- Treinar equipes para reconhecer que o "atacante médio" agora tem acesso a manuais técnicos via IA generativa, mesmo sem experiência prévia em protocolos industriais;
- Acompanhar alertas de agências como o DHS americano e empresas especializadas em segurança industrial, caso do Dragos.