
Mais de 100 propostas contra data centers pressionam Amazon a abandonar sigilo
Amazon anuncia que não usará mais acordos de confidencialidade em negociações de data centers com governos locais, seguindo movimento da Microsoft, após a falta de transparência gerar mais de 100 moratórias propostas nos Estados Unidos.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: mais de 100 moratórias
A Amazon Web Services (AWS), divisão de computação em nuvem da Amazon, anunciou que deixará de usar acordos de confidencialidade (NDAs, na sigla em inglês) ao negociar a instalação de data centers com governos locais. A decisão chega em um momento em que mais de 100 moratórias e restrições a esse tipo de infraestrutura estão sendo consideradas em municípios dos Estados Unidos, de Nova York a São Francisco.
O CEO da AWS, Matt Garman, foi direto: "We no longer use nondisclosure agreements with the government agencies we work with on our projects" (não usamos mais acordos de confidencialidade com as agências governamentais com as quais trabalhamos em nossos projetos, em tradução livre). A empresa também prometeu divulgar anualmente dados sobre uso de energia, consumo de água e percentual de energia livre de carbono ligados a seus data centers, além de promover eventos abertos ao público nessas comunidades.
Foto: reprodução/wndu.com
Quem ganha e quem perde
A mudança segue um caminho já aberto pela Microsoft, que havia abandonado os NDAs em negociações semelhantes ainda em 2026. O gatilho para a repercussão recente foi o caso da cidade de South Bend, nos EUA, cujo prefeito proibiu funcionários públicos de assinar NDAs depois que o diretor de obras públicas da cidade admitiu ter firmado um desses acordos com a AWS em 2023 — sem que moradores vizinhos aos projetos soubessem do que estava sendo negociado.
Para comunidades afetadas, a vitória é parcial: a ativista ambiental Erin Brockovich, conhecida por expor contaminação de água em casos que inspiraram o filme homônimo, afirma que a falta de transparência é hoje a reclamação número um sobre data centers — um padrão de anúncios feitos só depois que as licenças já foram obtidas, com empresas que não retornam contato e autoridades que assinam NDAs antes que os vizinhos saibam do projeto.
A Amazon também afirma ter destinado mais de US$ 1 bilhão a comunidades onde mantém grande presença de data centers nos últimos três anos. Mas a dúvida que fica, segundo observadores do setor, é se abrir mão do sigilo contratual — sem mudar o ritmo de expansão nem o processo de licenciamento — é suficiente para reconstruir a confiança já erodida pelas negociações passadas.