
Manual da psiquiatria vai incluir biologia pela 1ª vez — mas com cautela
A próxima edição do DSM, a bíblia diagnóstica da psiquiatria, vai incorporar biomarcadores e fatores neurobiológicos pela primeira vez em sua história. O problema: biomarcador confiável para transtorno mental, hoje, é quase inexistente.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine um manual usado há mais de 70 anos por psiquiatras do mundo inteiro — o DSM, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — que, em nenhuma de suas cinco edições anteriores, usou um exame de sangue, uma imagem cerebral ou um teste genético para fechar diagnóstico. Tudo sempre foi baseado em entrevista clínica e lista de sintomas. Isso está prestes a mudar, ao menos em parte.
O que é confirmado
A American Psychiatric Association (APA) criou um subcomitê dedicado a "biomarcadores e fatores biológicos" dentro do processo de revisão do DSM, e essa é a primeira vez que a categoria entra formalmente na arquitetura do manual. Segundo Anand Kumar, professor e chefe do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Illinois Chicago e membro do comitê estratégico entre 2024 e 2026, o objetivo é aproximar psiquiatria e neurociência sem abandonar os componentes psicológicos e sociais que definem transtornos mentais.
Os exemplos concretos que já existem são limitados: um teste sanguíneo para as proteínas amiloide e tau, biomarcadores de Alzheimer, foi aprovado pela FDA em março de 2025 — mas é para uma condição neurológica, não psiquiátrica no sentido clássico. A proteína C-reativa (CRP), marcador de inflamação, aparece elevada em cerca de 30% dos pacientes com depressão. Pontuações de risco poligênico, que somam variantes genéticas associadas a transtornos, também estão sendo avaliadas como ferramenta auxiliar.
O que é hipótese (ainda)
Aqui está o ponto que a própria APA reconhece: não existe, até agora, nenhum biomarcador psiquiátrico cientificamente validado para diagnosticar depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar ou qualquer outra condição da lista — a única exceção segue sendo Alzheimer, que tecnicamente não é classificado como transtorno psiquiátrico primário. As mudanças biológicas por trás de quadros como depressão são sutis, e a tecnologia atual — exames de sangue, imagem cerebral, dados de wearables — ainda não consegue capturá-las de forma confiável o bastante para virar critério diagnóstico isolado.
O plano da APA é que o processo seja gradual: o subcomitê vai revisar avanços em genética, neuroimagem, marcadores inflamatórios no sangue e dados digitais de dispositivos vestíveis, incorporando o que for validado à medida que a ciência avançar. Não há data final confirmada para o lançamento da próxima versão.
Por que isso importa
Se der certo, o efeito é reduzir a subjetividade do diagnóstico psiquiátrico, hoje dependente quase inteiramente do relato do paciente e da avaliação clínica. Mas os próprios autores do processo fazem questão de frisar: biologia vai complementar o exame clínico, não substituí-lo — pelo menos não nesta geração de manual.