
Marte: cristais indicam que água líquida durou mais do que se pensava
Estudo com dados do rover chinês Zhurong encontrou cristais de selenita formados em água parada há cerca de 757 milhões de anos — um terreno muito mais jovem do que qualquer registro anterior de água líquida em Marte.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine descobrir, dentro de uma pedra, uma bolha de água presa há centenas de milhões de anos — mais ou menos como se a história geológica da Terra tivesse guardado, em uma gota congelada no tempo, o instante exato em que um lago secou. É essa a proporção da descoberta: cristais minerais em Marte que parecem ter aprisionado um retrato químico de água líquida muito mais recente do que qualquer evidência anterior sugeria.
O que foi confirmado
Foto: reprodução/phys.org
Uma equipe liderada pelo pesquisador Jiacheng Liu, da Universidade de Hong Kong, identificou cristais de selenita — uma variedade da gipsita — em rochas claras e planas fotografadas pelo rover chinês Zhurong, na região de Utopia Planitia, no hemisfério norte marciano. O estudo, publicado na revista científica Nature Astronomy (DOI 10.1038/s41550-026-02917-3), aponta que esses cristais só se formam quando cristalizam diretamente a partir de salmoura concentrada em água parada — ou seja, não são compatíveis com gelo ou com processos secos.
A datação do terreno onde as rochas foram encontradas apontou uma idade de aproximadamente 757 milhões de anos, período classificado como amazônico recente na cronologia geológica de Marte. É um número expressivo: a hipótese mais aceita até então situava o fim da água líquida estável na superfície do planeta há cerca de 3 bilhões de anos. Para chegar a essa identificação mineral, os cientistas cruzaram dados de dois instrumentos do Zhurong — um espectrômetro de infravermelho de ondas curtas e um sistema de espectroscopia a laser (LIBS), ambos parte do detector de composição de superfície do rover.
Com base na espessura e distribuição das camadas de evaporito, os pesquisadores calcularam que seria necessário o equivalente a entre 6,25 e 25 metros de lâmina d'água acumulada para formar os depósitos observados.
O que ainda é hipótese
A principal ressalva é sobre a origem exata dessa água: os pesquisadores não determinam se ela veio de degelo sazonal, de aquíferos subterrâneos que aflorariam à superfície ou de outro mecanismo climático pontual. Também é hipótese — ainda não comprovada — que as bolsas microscópicas seladas dentro dos cristais de selenita preservem amostras químicas intactas dessa água antiga, o que exigiria novas análises, possivelmente com missões futuras de retorno de amostras. Os dados do Zhurong são limitados aos 93 dias de operação ativa do rover antes de a missão ser interrompida por uma tempestade de poeira em 2022, o que restringe a amostragem a uma única região do planeta.
Ainda assim, o achado reabre a discussão sobre até quando Marte manteve condições potencialmente favoráveis à vida — e sugere que essa janela pode ter sido consideravelmente mais recente do que os modelos climáticos tradicionais indicavam.