
Medo da IA acabar com empregos é global, mas dados mostram onde ele já se confirma
Pesquisa do Pew Research com 37 países mostra que a maioria teme perder o emprego para a IA, enquanto levantamentos de Stanford e Deloitte revelam onde o impacto já é mensurável — e onde ainda é só ansiedade.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O medo é global, e os números não escondem isso
Se você perguntar a dez pessoas ao redor do mundo se a inteligência artificial vai roubar empregos, pelo menos quatro ou cinco vão dizer que sim — e em países como Austrália, Coreia do Sul e Estados Unidos, esse número sobe para mais de sete em cada dez. É o que mostra a mais recente rodada do Pew Research Center, instituto de pesquisas americano referência global em levantamentos de opinião pública, que ouviu mais de 42 mil pessoas em 37 países entre fevereiro e junho de 2026.
O resultado é quase um consenso ao contrário: em 34 dos 37 países pesquisados, a maioria acredita que a IA vai reduzir postos de trabalho nos próximos 20 anos. A mediana global chega a 46% de pessoas pessimistas, contra apenas 9% que apostam em mais empregos. Austrália e Coreia do Sul lideram o pessimismo, com 76% cada; os Estados Unidos aparecem com 71%. Outro dado chama atenção: 37% dizem estar mais preocupados do que animados com a presença crescente da IA no dia a dia, enquanto 41% se dividem entre os dois sentimentos.
Mas o medo bate à porta de quem, exatamente?
Aqui entra a parte que costumo comparar a um termômetro: medo é sintoma, mas nem sempre indica onde está o foco da febre. Um estudo do Stanford Digital Economy Lab, laboratório de pesquisa da Universidade Stanford dedicado a medir os efeitos econômicos da tecnologia, cruzou dados de folha de pagamento de milhões de trabalhadores americanos, fornecidos pela processadora ADP, até junho de 2026. A conclusão é cirúrgica: trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações mais expostas à IA — como programação, marketing e atendimento ao cliente — têm nível de emprego 19% abaixo do esperado, um salto em relação aos 15% registrados um ano antes.
O detalhe importante, que a pesquisa faz questão de frisar, é que isso não é uma onda de demissões em massa. É mais como uma torneira que fecha aos poucos: empresas estão contratando menos gente nova, não expulsando quem já está lá. Trabalhadores acima de 30 anos nas mesmas áreas, aliás, seguem com emprego em alta.
Quem já usa a ferramenta pensa diferente
Outro retrato vem do Stanford SALT Lab, que analisou 844 tarefas de 104 ocupações com a ajuda de 1.500 profissionais, representando cerca de 70 milhões de trabalhadores americanos: 46,1% das tarefas avaliadas foram consideradas boas candidatas à automação — mas a preferência dos próprios trabalhadores é por um modelo de parceria, não de substituição.
Já na Deloitte, gigante global de consultoria e auditoria, uma pesquisa no Reino Unido com 25 mil trabalhadores mostrou que 63% já usam IA generativa no trabalho, boa parte diariamente. O problema é que 31% fazem isso sem o empregador saber — a chamada "shadow AI" — e quase metade nunca recebeu treinamento formal. Ou seja, a ferramenta já está na mesa, mas o manual de instruções, não.