
Mercado compra seguro contra estouro da bolha de IA em Wall Street
CDS de gigantes de IA dispararam para o maior nível desde 2021 e o volume semanal negociado saltou de US$ 2 bi para mais de US$ 9 bi em dois meses. Investidores não apostam contra a IA, mas já pagam para não se queimar se a festa acabar mal.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: de US$ 2 bi para US$ 9 bi em dois meses
Segundo estimativa do Morgan Stanley, o volume médio semanal de contratos de proteção contra calote (CDS) ligados a títulos de sete gigantes de IA — Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta, Broadcom, SpaceX e Oracle — saltou de menos de US$ 2 bilhões em julho para mais de US$ 9 bilhões em setembro. É o tipo de movimento que não aparece do nada: Wall Street está comprando seguro contra o colapso do boom de inteligência artificial, mesmo sem apostar contra ele.
Puts, CDS e o prêmio do medo
Foto: reprodução/en.bloomingbit.io
Na CoreWeave, a “neocloud” que se tornou termômetro do nervosismo do mercado com IA, opções de venda com preço de exercício em US$ 35 ganharam popularidade mesmo com a ação ainda na casa dos US$ 55 — uma aposta de que o papel pode cair bem mais do que o consenso espera. Os spreads de CDS de Oracle, SpaceX e CoreWeave bateram recordes: a Oracle chegou a cerca de 263 pontos-base, a SpaceX a 203, e a CoreWeave avançou para a maior cifra entre as cinco companhias monitoradas pela Solve, provedora de dados de crédito — níveis não vistos desde 2021. Segundo Eugene Grinberg, da Solve, “não houve exceções, o que sugere uma preocupação ampla do mercado com o setor”.
Quem ganha, quem se protege
Stephen Solaka, da gestora Gateway Investment Advisers, resume o apetite recente: “estamos vendo demanda realmente significativa de pessoas que querem se proteger contra perdas”. Quem ganha aqui não é só quem vende a proteção — é quem lucra com o aluguel de poder computacional mesmo em cenário turbulento: o preço por hora do chip B300 da Nvidia subiu 56% neste ano, para US$ 7,56, embora mesas como a Jump Trading já modelem um piso hipotético de US$ 4 caso a demanda desaqueça. Dave Olsen, presidente da Jump Trading, resumiu a lógica do momento: “não acho que minha casa vá pegar fogo, mas mesmo assim tenho seguro”.
O que fica de recado
Ninguém em Wall Street está apostando abertamente contra a IA — mas o custo de se proteger contra ela nunca foi tão alto desde 2021, o que diz muito sobre o tamanho do risco que o mercado já embute nos trilhões investidos em infraestrutura do setor.