
Mercado Livre corta prazo de entrega para 60 minutos em SP e mira farmácias
Com o Envios Agora, a empresa reduz o prazo de 3 horas para 60 minutos em bairros selecionados da capital paulista e entra na venda de remédios com receita, movimento que já derrubou ações de redes de farmácia na bolsa.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
60 minutos é o novo padrão que o Mercado Livre quer impor
Sessenta minutos. É esse o número que o Mercado Livre colocou na mesa ao anunciar o Envios Agora, serviço que corta o prazo de entrega de até 3 horas para até 1 hora em bairros selecionados da capital paulista. O anúncio saiu durante o Mercado Livre Experience 2026, evento que marca os 10 anos da companhia no Brasil, e por enquanto vale só para vendedores selecionados e produtos de até 15 kg, com coleta direto no estabelecimento do lojista e entrega pela própria rede de entregadores da plataforma.
A fase é de teste. A empresa não revelou quais bairros já operam com o novo prazo, mas a promessa é expandir primeiro para toda a capital paulista e, depois, para outros municípios do país.
O flanco novo: remédio com receita
O movimento mais estratégico, no entanto, é a entrada na venda de medicamentos que exigem retenção de receita, como antibióticos e canetas para diabetes e controle de peso (caso dos GLP-1). A cobertura já alcança a Região Metropolitana de São Paulo, e a meta é fechar o ano com 20 farmácias parceiras integradas ao esquema de entrega em 60 minutos — rollout que começa em meados de outubro.
É um convite direto para a briga com o iFood, hoje dono de folga desse mercado: a plataforma de delivery soma R$ 3,4 bilhões em vendas na categoria farmácia nos 12 meses até o primeiro trimestre de 2026, com mais de 22 mil parceiros ativos espalhados por 984 cidades brasileiras. O Mercado Livre chega atrasado, mas chega com a escala de quem já domina logística de e-commerce.
Quem sente o baque primeiro
O mercado já precificou o risco: ações da RD Saúde (dona da Raia Drogasil) caíram 5,38% e os papéis da Pague Menos recuaram 8% na sessão seguinte ao anúncio, reflexo do temor de que marketplaces comprimam ainda mais a margem das redes físicas de farmácia.
Por trás da promessa de velocidade está um investimento pesado em infraestrutura: a empresa planeja fechar 2026 com 72 centros logísticos de grande porte, alta de 39% frente a 2025, e 30 centros de fulfillment, mais de 3,3 milhões de m² de área. Segundo o Mercado Livre, hoje 59% das entregas em capitais já chegam no dia seguinte à compra, índice que sobe para 75% no estado de São Paulo — a base sobre a qual a empresa aposta para justificar o salto para a entrega instantânea.
Se o Envios Agora realmente sair do piloto paulistano para o resto do país, o efeito cascata pega tanto o varejo farmacêutico quanto os aplicativos de entrega expressa, que até aqui tratavam a velocidade como vantagem exclusiva.