
Mercedes recorre à Geely para bancar compacto elétrico anti-BYD
Sob a marca Smart, as duas montadoras aprofundam uma joint venture de 50/50 para lançar um elétrico compacto acessível e tentar frear o avanço da BYD, líder global do segmento.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que explica a jogada
A BYD fechou o primeiro semestre de 2026 com fatia próxima de 18% a 19% do mercado global de veículos eletrificados, mesmo com queda de vendas na comparação anual — e ainda assim seguiu ampliando exportações para Europa e América Latina, região onde mais de um terço de suas vendas de elétricos a bateria já vem de fora da China. É esse avanço que empurrou Mercedes-Benz e Geely a colocar mais lenha numa parceria que já existe desde 2019: a joint venture 50/50 responsável pela marca Smart, retomada agora para bancar um compacto elétrico pensado como resposta direta a modelos como o Dolphin e o Dolphin Mini.
Por que duas gigantes precisam se unir
Foto: reprodução/electrive.com
O produto da vez é o Smart #2, sucessor do antigo ForTwo: design assinado pela rede global de estúdios da Mercedes-Benz, engenharia entregue pela rede de desenvolvimento da Geely. A estreia da versão de produção está marcada para o Salão de Paris, em outubro de 2026, com chegada a mercados globais projetada a partir de 2027 e preços estimados entre 22,5 mil e 25 mil euros na Europa. É o retrato de um recuo estratégico: a Mercedes, sozinha, não consegue mais competir em custo com a engenharia chinesa em elétricos de entrada, e recorre ao know-how da sócia para isso. Reportagens recentes também apontam que a montadora alemã estuda usar a arquitetura eletroeletrônica GEEA 4.0 da Geely — batizada internamente de "Phoenix" — em uma futura geração de compactos, algo que a própria Mercedes classificou como "fabricado e não verdadeiro", mas que ilustra o quanto o tabuleiro já mudou.
Quem ganha, quem perde
Quem ganha, no curto prazo, é a Geely: vira fornecedora de tecnologia para uma das marcas mais tradicionais do mundo, validando sua engenharia em escala global. A Mercedes ganha velocidade e custo — mas paga o preço reputacional de terceirizar parte do desenvolvimento de seus elétricos de entrada a uma parceira chinesa, justamente no segmento mais sensível a preço. Quem perde, por ora, é a própria noção de que montadoras europeias podem competir sozinhas contra a China no elétrico compacto. Para o consumidor brasileiro, a notícia por ora é só expectativa: a Smart não confirmou operação oficial no país. O que está confirmado é o cronograma europeu — e o recado de que a resposta ocidental à BYD, quando existe, está sendo construída com peças chinesas.