
Mercúrio encolheu bem mais do que se pensava, mostra novo estudo
Pesquisa do Centro Aeroespacial Alemão recalcula a contração de Mercúrio para até 23 km de diâmetro em 4,5 bilhões de anos, 30% a mais do que se estimava antes.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine perder o equivalente à distância entre o centro de São Paulo e Guarulhos — só que de diâmetro, e não de uma cidade, mas de um planeta inteiro. É mais ou menos essa a ordem de grandeza da contração que Mercúrio sofreu desde que se formou, segundo um novo estudo publicado em 10 de setembro na revista científica Geophysical Research Letters.
O que mudou na conta
O trabalho, liderado por Gaku Nishiyama, pesquisador do Instituto de Pesquisa Espacial do Centro Aeroespacial Alemão (DLR, a agência espacial nacional da Alemanha), recalculou a perda de diâmetro de Mercúrio para algo entre 19 km e 23 km ao longo de 4,5 bilhões de anos. As estimativas anteriores, baseadas em imagens de sondas como a MESSENGER, apontavam uma contração de apenas 4 km a 16 km — ou seja, entre 10% e 30% a menos do que o novo número.
Isso é confirmado pelo estudo: o planeta encolheu porque esfriou por dentro. Ao longo de bilhões de anos, o calor interno de Mercúrio foi se dissipando, e seu núcleo e manto se contraíram, deformando a crosta e criando escarpas e cristas na superfície — como uma fruta que murcha e enruga a casca.
Por que as crateras enganavam os cientistas
A novidade não é a contração em si, mas a razão de ela ter sido subestimada: crateras de impacto e os detritos espalhados por asteroides cobriram parte dessas escarpas, tornando-as invisíveis para os sensores das missões anteriores. Nishiyama compara o efeito a uma estrada recém-cascalhada, que esconde as marcas de desgaste do asfalto por baixo. Ao mapear separadamente regiões com mais e menos crateras, a equipe percebeu que os terrenos mais “bagunçados” por impactos tinham menos sinais de contração visíveis — não porque encolheram menos, mas porque a evidência ficou soterrada.
O que ainda é hipótese
O tamanho exato da contração continua sendo uma estimativa, não um número fechado — a faixa de 19 km a 23 km reflete diferentes modelos de quanto terreno crateroso ainda esconde. Também é hipótese, não fato confirmado, a explicação para a causa: os pesquisadores sugerem que Mercúrio pode ter um núcleo metálico maior do que se pensava, menos elementos leves como silício misturados a ele, ou simplesmente ter se formado mais quente do que os modelos atuais preveem. Novas medições, especialmente de futuras missões ao planeta, serão necessárias para decidir qual dessas explicações é a certa.