
Mesmo com aquecimento global em queda, Terra pode ter danos irreversíveis
Relatório da International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), elaborado com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), alerta que ultrapassar 1,5°C de aquecimento pode travar perdas de gelo por séculos, mesmo que a temperatura caia depois.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: um recuo da temperatura não desliga o relógio do degelo
Imagine apertar o freio de um caminhão carregado: mesmo pisando com força, ele não para na hora — continua andando por inércia. É essa lógica que um novo relatório aplica ao clima da Terra. Divulgado nesta segunda-feira (2/11), o documento mostra que, mesmo se a temperatura média global subir além do limite de 1,5°C do Acordo de Paris e depois recuar, boa parte do estrago em geleiras, calotas polares e solo congelado pode durar séculos — ou não ser revertida nunca.
O que está confirmado pelo relatório
O alerta está no relatório "Overshoot and the Cryosphere: Averting Global Meltdown", divulgado pela International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), rede que reúne cientistas especializados em regiões polares e de montanha, em coordenação com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O texto reúne contribuições de mais de 80 especialistas e foi lançado junto com a edição mais recente do relatório "State of the Cryosphere".
O termo-chave é "overshoot": o cenário em que a temperatura global passa do limite de 1,5°C e, só depois, volta a cair. Segundo o relatório, hoje as camadas de gelo derretem numa velocidade cerca de seis vezes maior do que na década de 1990. Entre os impactos já considerados confirmados pelos cientistas estão a aceleração da perda de gelo na Groenlândia e na Antártida, o aquecimento e a acidificação dos oceanos polares, e o descongelamento do permafrost — solo congelado que, ao degelar, libera gases de efeito estufa armazenados há milênios.
O que é projeção, não certeza
Aqui entra a parte hipotética: dependendo do cenário de emissões, o relatório projeta uma elevação do nível do mar de vários metros ao longo dos próximos séculos, podendo chegar a alguns centímetros por ano em situações mais extremas. São projeções de modelagem climática, não medições diretas — e os próprios cientistas da ICCI reforçam que ainda existe uma janela de ação para reduzir a gravidade desses cenários.
O que os cientistas recomendam
O relatório defende um corte de emissões de pelo menos 5% ao ano a partir de agora, com a meta de zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até meados do século, eliminando o uso de combustíveis fósseis sem atrasos. Os autores argumentam que um limite de aquecimento mais próximo de 1°C seria mais seguro para preservar as grandes camadas de gelo. Para o Brasil, país costeiro com grandes cidades litorâneas, o recado prático é que o tempo de resposta climática é mais longo — e mais caro de reverter — do que normalmente se pensa.