
Mesmo usando IA todo dia, americanos continuam desconfiados da tecnologia
Pesquisa da Gallup encomendada pela Microsoft mostra que 68% dos americanos que usam IA diariamente se dizem preocupados com a tecnologia, e o apoio à regulação governamental segue firme mesmo entre os mais familiarizados com as ferramentas.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
A familiaridade não acalma o coração
Tem uma crença meio ingênua circulando por aí: a de que desconfiança em IA é só falta de intimidade com a ferramenta — como quem tem medo de andar de avião só porque nunca voou. Use todo dia, dizem, e o medo passa. Pois um novo levantamento da Gallup, encomendado pela Microsoft — instituto de pesquisa americano de reputação consolidada em sondagens de opinião pública —, joga um balde de água fria nessa teoria. Entre cerca de mil entrevistados por país, em 37 nações ouvidas entre abril e julho, os dados mostram que 68% dos americanos que usam IA diariamente afirmam estar preocupados com a tecnologia. Ou seja: o uso frequente não é vacina contra a inquietação.
Dois lados da mesma moeda
Aqui vale abrir o jogo, em bom português, sobre a divergência de leitura. De um lado estão os otimistas do costume, que apostam que basta tempo de estrada: à medida que mais gente usar chatbots e assistentes no dia a dia, a curva de aprendizado natural dissolveria o receio, como aconteceu com o cartão de crédito ou a internet banking há duas décadas. Do outro lado estão os que enxergam a desconfiança como algo mais lastreado — não ignorância, mas experiência acumulada. Afinal, 80% dos usuários menos frequentes de IA relataram preocupação, e mesmo entre quem nunca usou a tecnologia o índice chega a 74%. Se o problema fosse só falta de contato, os números deveriam cair conforme o uso sobe — e não é bem isso que acontece: a queda existe, mas é modesta, e a preocupação permanece majoritária mesmo entre os usuários mais assíduos.
O paradoxo do usuário fiel
O dado mais curioso do relatório é quase um paradoxo doméstico: é como confiar no mecânico que conserta seu carro toda semana, mas ainda assim rezar para ele não aparecer de novo. Americanos usam IA para tarefas cotidianas, dependem dela, e ainda assim resistem à ideia de vê-la decidindo sobre contratação, saúde, educação ou serviços públicos. Apenas 36% dos americanos esperam que a IA ajude o país como um todo — um dos índices mais baixos entre os 37 países pesquisados.
Regulação não perde força
E é aqui que mora o recado mais direto ao mercado e aos formuladores de políticas: a familiaridade com a ferramenta não esfria o apetite por regras. Segundo o levantamento, 60% dos americanos preferem que seja o governo a criar as regulações de IA, ante 50% que confiariam nas próprias empresas para se autorregular em conjunto. Isto é: quanto mais a IA entra na rotina, mais as pessoas parecem querer alguém de olho nela — não menos. Para quem apostava que a familiaridade compraria licença social automática, a pesquisa é um alerta e tanto: adoção em massa não é sinônimo de confiança em massa.