
Meta AI bloqueia imagens de Lula, mas libera as de Flávio Bolsonaro
Testes mostraram que a ferramenta de inteligência artificial da Meta, dona do WhatsApp, recusava gerar cartazes com Lula e o número 13, mas aceitava pedidos com Flávio Bolsonaro e o número 22. A empresa admitiu falha nos filtros e prometeu corrigir.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O que aconteceu
A uma semana e meia do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, usuários do WhatsApp descobriram uma falha e tanto na Meta AI, o assistente de inteligência artificial da Meta, dona do WhatsApp e do Instagram. Ao pedir um cartaz para "Lula 13" nas cores verde e amarela, a ferramenta recusava: "não consegui gerar a imagem que você pediu agora com Lula e o número 13". O mesmo pedido para "Flávio 22" — referência a Flávio Bolsonaro, candidato do PL e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — era atendido sem ressalvas.
Em bom português: o sistema que deveria tratar os dois candidatos da mesma forma estava, na prática, discriminando um deles. E a falha não parava aí. Um teste com Augusto Cury, do partido Avante e número 70, também funcionou normalmente, com frases como "Por um Brasil forte".
Por que o nome importa
A explicação técnica encontrada pelo Tecnoblog é quase cômica: o filtro da Meta AI bloqueia nomes completos de candidatos, mas não bloqueia primeiros nomes isolados. Como "Flávio" sozinho não ativa a trava, a IA desenhava o cartaz sem pestanejar. Já "Lula" — que é como o presidente é popularmente conhecido, não um sobrenome — caía na mesma lista de bloqueio do nome completo. Resultado: um critério pensado para ser neutro produzia um efeito desigual na prática, sem que ninguém tivesse programado isso de propósito.
Os dois lados
A campanha de Lula acusou a Meta de criar obstáculos à divulgação de conteúdo do presidente. A empresa, por sua vez, negou favorecimento político, disse que não usa "critérios ideológicos" e que aplica "os mesmos padrões de uso a usuários e conteúdos" — atribuindo o episódio a um erro de configuração nos filtros para nomes simples de candidatos, já corrigido.
O caso cai em um momento sensível: a Resolução 23.755/2026 do TSE proíbe que ferramentas de IA recomendem candidaturas ou interfiram na escolha eleitoral, mesmo de forma indireta. Fica a pergunta que a Meta ainda não respondeu publicamente: quantos outros filtros da Meta AI escondem esse mesmo tipo de assimetria, e por quanto tempo passaram sem ser notados?
Atualização (15/10, 00:59): O caso ganhou um novo capítulo: a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), coordenada pelo senador Camilo Santana, formalizou denúncia contra a Meta na Organização dos Estados Americanos (OEA), além de acionar também o TSE e a ANPD. A denúncia cita justamente o caso da Meta AI que bloqueava a geração de imagens de campanha com o nome de Lula enquanto liberava pedidos envolvendo Flávio Bolsonaro, classificando o episódio como "seletividade algorítmica". O PT soma a isso outras queixas, como restrições no impulsionamento de posts e anúncios da campanha petista no Instagram e instabilidades na visualização de publicações.
A campanha também buscou apoio internacional, reunindo-se com partidos e organizações de defesa da democracia de países como Argentina, Reino Unido, Chile, Estados Unidos, Espanha e Moçambique para dar repercussão ao caso fora do Brasil. A Meta nega as acusações, afirmando que não opera seus sistemas para favorecer ou prejudicar candidatos e que está comprometida com a aplicação igualitária das regras eleitorais; a empresa já havia suspendido temporariamente a geração de imagens de candidatos por seus sistemas de IA.