Meta de eletrificação global até 2035 enfrenta o desafio da rede elétrica
IEA e negociadores climáticos querem elevar a eletricidade a 35% do consumo de energia global até 2035. O problema não é falta de vontade: é rede, armazenamento e setores que resistem à mudança.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: de cada 100 dólares gastos, o elétrico já ganha
Um jeito simples de entender por que a eletrificação virou prioridade: com US$ 100 em gasolina, um carro a combustão roda cerca de 862 milhas (1.387 km). O mesmo valor em eletricidade move um carro elétrico por mais de 2.200 milhas — cerca de três vezes mais longe. Em casa, US$ 100 em gás aquece um imóvel por 30 dias; o mesmo valor em eletricidade, via bomba de calor, rende 42 dias. A conta é essa vantagem que está no centro da aposta de negociadores climáticos e da IEA (Agência Internacional de Energia, organização intergovernamental que assessora países em políticas de energia).
A meta: de 23% para 35% em uma década
Segundo reportagem da Inside Climate News republicada pela Ars Technica, a eletricidade representava 16,7% do consumo final de energia no mundo em 2000 e subiu para 23,4% em 2025 — avanço puxado principalmente pela China, enquanto a América do Norte ficou entre as regiões com crescimento mais lento. Agora, a meta em discussão é elevar essa participação para 35% até 2035. É uma meta, não um fato consumado: o número deve ser votado na COP31, em novembro, em Antalya, na Turquia, depois de debatido em rodada preparatória em Bonn, em junho. Fatih Birol, diretor-executivo da IEA, resumiu o momento dizendo que, pela primeira vez em anos, os três objetivos que motivam a eletrificação — custo, segurança energética e impacto ambiental — estão alinhados.
A parte difícil
O otimismo, porém, esbarra em obstáculos concretos listados pela própria reportagem:
- Setores sem rota clara de eletrificação: caminhões pesados, transporte marítimo e aviação continuam sem substitutos elétricos maduros em escala, e não devem migrar rapidamente para a eletricidade.
- Custo inicial alto: diferente de usinas a gás ou carvão, parques solares, eólicos e frotas elétricas exigem investimento pesado na construção, mesmo com operação mais barata depois — o que trava decisões em economias com crédito caro, caso de países em desenvolvimento como a Nigéria, citada no texto.
- Barreiras comerciais e políticas: a disputa entre produzir equipamentos localmente ou importar itens mais baratos, como painéis solares chineses, cria atrito político que atrasa metas de eletrificação.
- Pressão de interesses ligados a combustíveis fósseis, que resistem ao ritmo de substituição proposto.
A própria IEA, em seu relatório setorial sobre eletricidade, já vinha sinalizando esse gargalo de infraestrutura: mais de 2.500 gigawatts em projetos de renováveis, grandes consumidores e armazenamento estão hoje represados em filas de conexão à rede elétrica em diversos países — um represamento que, segundo a agência, pode tornar a própria rede o "elo fraco" da transição energética, independentemente de qual meta percentual seja aprovada em Antalya.
O retrato que emerge das fontes é de uma meta tecnicamente defensável, mas que depende de decisões de infraestrutura, financiamento e diplomacia comercial que não aparecem nos gráficos de eficiência energética — e que vão pesar tanto quanto qualquer percentual na mesa da COP31.