
Meta mandou fazer bonés de 'sigilo advogado-cliente' para blindar provas
Equipe do Instagram encomendou bonés bordados com a sigla 'a/c priv' durante o lançamento das Teen Accounts, e documento revelado na Justiça dos EUA é citado como prova de 'cultura de abuso de privilégio' contra famílias que processam a empresa.
Por Marcos Silva · Repórter de plantão
O boné virou prova em tribunal
Um boné de beisebol bordado com a sigla "a/c priv" — abreviação de "attorney/client privilege", o sigilo advogado-cliente — está no centro de uma nova polêmica envolvendo a Meta, dona do Instagram. Segundo reportagem do The Verge, a equipe responsável pelo Project Nido, nome interno do projeto que lançou as Teen Accounts (contas com controles extras para adolescentes) em 2024, encomendou o item para os funcionários usarem durante reuniões internas.
A lógica, segundo advogados que representam famílias em ação judicial contra a empresa, é simples: se um funcionário está de boné avisando que aquela conversa é protegida por sigilo advogado-cliente, fica mais fácil depois alegar que qualquer documento ou anotação daquela reunião não pode ser usado como prova em processo.
O processo por trás do caso
O caso corre no tribunal federal dos EUA sob o número 4:22-md-03047, que reúne ações sobre suposto dano à saúde mental de adolescentes causado por redes sociais. Advogados dos autores apresentaram os bonés como símbolo de uma "cultura de abuso de privilégio" dentro da Meta, usada para blindar de olhares externos pesquisas internas sobre os efeitos do Instagram em jovens — tema que ganhou força pública depois que dados internos vazaram em 2021.
A juíza federal Yvonne Gonzalez Rogers, que preside o caso, já havia classificado antes algumas redações de documentos feitas pela Meta como "inteiramente inapropriadas". Em um exemplo citado por ela, a empresa tentou justificar como sigilo legal uma discussão que, na prática, era uma decisão comercial sobre publicar ou não determinados dados — decisão tomada para evitar vazamentos, não por orientação jurídica.
Consequência prática
Diante da repercussão do caso, a juíza determinou que a Meta refaça a revisão de sigilo em 300 documentos do processo. A empresa já havia desclassificado cerca de 65 mil documentos em abril, mas pediu prazo até o fim deste ano para revisar o restante do material apontado pelos advogados dos autores.
Procurada pela imprensa americana, a Meta não negou a existência dos bonés, mas o caso segue sob análise da Justiça, que decidirá se as designações de sigilo feitas pela empresa realmente protegiam comunicação jurídica ou serviam para esconder decisões de negócio de escrutínio público.