
Metade barco, metade avião: táxi aéreo elétrico faz 1º voo com gente a bordo
A Regent Craft, startup americana de mobilidade elétrica, decolou pela primeira vez com tripulantes a bordo do Seaglider Viceroy, embarcação que promete ligar cidades costeiras sem precisar de aeroporto.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Se você mora perto do mar e já ficou preso num trânsito de litoral no feriado, essa notícia é para você sonhar (ou se irritar, dependendo de quanto vai custar a passagem).
O que voou e onde
No dia 2 de setembro, a Regent Craft — startup americana de mobilidade elétrica fundada em 2020 — fez decolar, pela primeira vez com pessoas a bordo, o protótipo Viceroy do seu "Seaglider", uma embarcação elétrica que é meio barco, meio avião. O teste aconteceu na Baía de Narragansett, em Rhode Island, sede da empresa, com dois capitães na cabine. O voo durou apenas 30 segundos, percorreu cerca de 596 metros e chegou a 10 metros de altura sobre a água — nada muito longo, mas suficiente para a empresa dizer que é a maior embarcação totalmente elétrica com efeito solo já pilotada por humanos.
Foto: reprodução/regentcraft.com
Como funciona essa coisa
O Seaglider flutua como barco em baixa velocidade, sobe sobre hidrofólios (tipo asas submersas) conforme acelera e, a partir de determinada velocidade, desliza rente à água aproveitando o chamado "efeito solo" — o mesmo princípio aerodinâmico que mantém aves marinhas voando baixo por longas distâncias sem gastar energia. Segundo a empresa, o veículo final deve levar 12 passageiros, cruzar a 30-80 km/h em modo hidrofólio e chegar a quase 290 km/h em áreas seguras e abertas. A regulação nos EUA ficará a cargo da Guarda Costeira — ou seja, nem aviação civil, nem trânsito rodoviário, um limbo regulatório novo.
Foto: reprodução/newatlas.com
Quem vai pagar (e por onde vai rodar)
A operadora de viagens costeiras de luxo The Twenty Five fechou o primeiro pedido comercial nos Estados Unidos, encomendando até 60 unidades do Viceroy. As rotas cogitadas incluem Nova York aos Hamptons, Boston a Nantucket, e Palm Beach a Miami — todos trechos de elite, days off de quem pode pagar caro para furar o trânsito litorâneo. A Regent também tem contratos ligados à área de defesa, incluindo uso militar do mesmo veículo para logística e resgate médico. Não há, nas fontes, valor de passagem nem cronograma de início da operação comercial além do início da produção ainda em 2026.
Cabe no Brasil?
Pensando no litoral brasileiro — Rio, Santos, Ilhabela, o próprio Nordeste — dá pra sonhar com algo do tipo ligando cidades costeiras sem depender de aeroporto. Mas antes de imaginar um Seaglider cruzando a Baía de Guanabara, valeria perguntar: quem regularia isso por aqui, a Marinha, a ANAC ou os dois? E o mais óbvio: até que ponto um transporte pensado para clientes de viagens de luxo chega a resolver mobilidade para quem mais precisa?