
Microplásticos não são inertes: eles mesmos criam substâncias nocivas na água
Estudo publicado na Nature mostra que microplásticos comuns geram radicais reativos ao simples contato com a água, sem luz ou produtos químicos externos. Efeito em humanos ainda não foi medido.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
O sangue humano é cerca de 50% água, e as células do corpo chegam a ter entre 60% e 80% de água na composição. É nesse ambiente aquoso que partículas de microplástico — muitas vezes menores que um grão de areia — acabam parando quando entram no organismo. E é justamente aí, no contato entre plástico e água, que um novo estudo identificou uma reação química inesperada.
O que foi confirmado
Pesquisadores da Columbia University e da University of California, Berkeley — com apoio do Lawrence Berkeley National Laboratory, laboratório federal americano de pesquisa científica — publicaram na revista Nature, em 14 de outubro, a descoberta de que microplásticos comuns geram espécies reativas de oxigênio (ROS, na sigla em inglês) apenas por estarem em contato com água, sem precisar de luz ultravioleta ou de qualquer substância química adicional.
Segundo o estudo, assinado por Wei Min e Naixin Qian, da Columbia, e por Teresa Head-Gordon, da UC Berkeley, a equipe testou seis tipos de plástico de uso cotidiano — polipropileno, polietileno, poliestireno, PVC, PET e acrílico — e todos produziram radicais hidroxila, uma forma de oxigênio altamente reativa e capaz de danificar proteínas, lipídios e DNA. A atividade química foi mais intensa nos plásticos mais hidrofóbicos, como polipropileno e polietileno. Em um dos testes de laboratório, um corante misturado com poliestireno em água degradou-se em 90%, enquanto permaneceu estável quando testado em outros líquidos.
"A maior surpresa foi que plásticos, há muito considerados quimicamente inertes, conseguem gerar radicais altamente reativos simplesmente ao entrar em contato com água, sem gatilhos externos como luz UV", afirmou Min, segundo trechos divulgados pelos pesquisadores.
O que ainda é hipótese
Os experimentos que sustentam a descoberta foram feitos em laboratório, com testes também em células de camundongo — não em pessoas. Os próprios autores reconhecem que ainda não mediram quantos desses radicais se formam de fato dentro do corpo humano, nem se essa produção química contribui, na prática, para os danos à saúde já associados à exposição a microplásticos, como inflamação e estresse celular.
Em outras palavras: o estudo oferece uma explicação química plausível para um mecanismo de dano biológico que cientistas já suspeitavam existir, mas não comprova, por ora, um efeito de saúde medido em seres humanos. A descoberta reabre a pergunta sobre o quanto a presença crescente de microplásticos em água potável, alimentos e no próprio corpo humano pode estar relacionada a processos inflamatórios cujo gatilho ainda não era compreendido.