
Modo IA do Google atrai mais buscas, mas rende menos dinheiro
Receita de busca do Google cresceu 12% no terceiro trimestre, para US$ 63,3 bilhões, mas o ritmo desacelerou porque cada consulta feita no Modo IA monetiza menos do que uma busca tradicional.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 63,3 bilhões, só que mais lentos
A receita de busca do Google somou US$ 63,3 bilhões no terceiro trimestre, alta de 12% sobre o ano anterior. O número é robusto, mas o ritmo decepciona: no trimestre anterior o crescimento tinha sido de 17%, e no primeiro trimestre do ano, de 19%. A desaceleração chama atenção justamente no momento em que o Google diz ter registrado o maior salto de consultas em cinco anos, puxado pelo Modo IA (AI Mode), ferramenta de busca com inteligência artificial generativa.
A contradição foi explicada pelo próprio Philipp Schindler, diretor de negócios do Google, em teleconferência de resultados: "o forte crescimento nas consultas do Modo IA teve impacto por causa da monetização mais baixa que estamos vendo no Modo IA". Na prática, cada busca feita no Modo IA gera menos receita publicitária do que uma busca tradicional no Google — e é essa diluição que está pesando no crescimento da linha de receita mais importante da Alphabet, controladora do Google.
Por que cada consulta vale menos
Schindler atribuiu o problema ao tipo de uso que os usuários fazem do Modo IA: consultas mais longas (até três vezes mais palavras que uma busca comum) e concentradas no início da jornada de compra, quando a pessoa está pesquisando opções e ainda não decidiu o que vai comprar — momento em que o anúncio tradicional de busca rende menos cliques pagos. É o efeito colateral de uma ferramenta pensada para competir com chatbots como o ChatGPT, da OpenAI, e com o próprio Gemini, assistente de IA do Google: ela aumenta o engajamento, mas ainda não replica o modelo de negócio que faz a busca tradicional ser uma máquina de caixa há duas décadas.
Quem ganha e quem perde
O investimento não para: a Alphabet aplicou US$ 51,4 bilhões em infraestrutura só neste trimestre, grande parte ligada a capacidade de IA. Para equilibrar a conta, o Google já escala anúncios dentro do AI Overviews e do Modo IA e testa formatos de anúncio multiturn (que acompanham o diálogo em várias etapas) em mercados internacionais, com chegada ao Brasil prevista para o quarto trimestre.
O lado positivo é que o tráfego não migrou para fora do Google — o Modo IA mantém o usuário dentro do ecossistema da empresa. O lado de atenção é para o investidor: se a monetização por consulta não evoluir, o crescimento de receita de busca pode continuar perdendo força mesmo com volume recorde de pesquisas, pressionando a margem do negócio que ainda sustenta boa parte do caixa da Alphabet.
Atualização (29/10, 22:08): Atualização (29/10): O Google anunciou em 28 de outubro que vai expandir a exibição de anúncios dentro do Modo IA da Busca para novos mercados, e o Brasil está na lista. Segundo o Canaltech, a chegada dos anúncios ao país está prevista para o quarto trimestre de 2026, ou seja, até dezembro, junto com México e Reino Unido. Nenhuma data exata foi divulgada.
A novidade já estava ativa nos Estados Unidos e passa a valer também em Austrália, Canadá, Índia, Quênia, Malásia, Nova Zelândia, Nigéria, Paquistão, Filipinas e Singapura. De acordo com a central de ajuda do Google, anúncios de texto e ofertas de produtos poderão aparecer dentro ou ao lado das respostas geradas por IA sempre que houver relevância comercial, sempre identificados com o rótulo Patrocinado.
O movimento é direto: depois de atrair volume de busca sem conseguir monetizar no mesmo ritmo, o Google decide testar anúncios justamente no formato que mais cresce dentro da Pesquisa. Shashi Thakur, vice-presidente de anúncios da empresa, justificou a aposta citando o comportamento do usuário: as consultas feitas no Modo IA são, em média, três vezes mais longas que as buscas tradicionais, o que, na leitura do Google, abre espaço publicitário dentro de interações mais longas e detalhadas.