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Smart Cities05 de out. de 2026, 09:49

Moradores de Utah batem de frente com data center de Kevin O'Leary

Projeto Wonder Valley, do investidor canadense Kevin O'Leary, famoso pelo reality Shark Tank, encolheu de 9 GW para cerca de 1 GW depois de protestos, derrotas eleitorais e processo por difamação contra ele e a Fox News.

Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities

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Um data center do tamanho de duas Manhattans

Imagine um empreendimento de data centers ocupando 40 mil acres — mais que o dobro da área de Manhattan — plantado no condado de Box Elder, no estado americano de Utah, ao norte do Grande Lago Salgado. Esse era o plano original do projeto Wonder Valley (também chamado Stratos Project), ligado ao investidor canadense Kevin O'Leary, conhecido do público brasileiro pelo reality show Shark Tank. A proposta previa até 9,5 gigawatts de capacidade de geração de energia — mais que o consumo médio de todo o estado de Utah.

Moradores locais não ficaram quietos. As queixas giraram em torno de água, qualidade do ar, ruído e o impacto do tamanho da obra na paisagem da região. O movimento foi organizado: houve petições, mais de 3 mil comentários públicos em audiências e até tentativas de forçar um referendo popular sobre o projeto.

Foto: reprodução/cryptobriefing.com

'Agentes chineses': a acusação que virou processo

Em 11 de maio, O'Leary piorou a crise ao afirmar, na Fox Business, que estava sendo atacado por agentes chineses por causa das críticas ao Wonder Valley — alegando que sua equipe havia rastreado endereços de IP dos opositores. A declaração tinha nomes específicos por trás: a Alliance for a Better Utah, organização progressista sem fins lucrativos, e a Elevate Strategies, consultoria política fundada por Gabrielle Finlayson, haviam publicado críticas ao projeto nas redes sociais em maio.

Seis semanas depois, O'Leary recuou. Em comunicado, afirmou não ter evidência de que a Alliance for a Better Utah, a Elevate Strategies, Gabrielle Finlayson, Taylor Knuth ou Joshua Kanter fossem financiados pela China ou pelo Partido Comunista Chinês. A retratação não impediu o processo: em julho, Kanter e Finlayson entraram com ação por difamação contra O'Leary e a Fox News, alegando uma campanha de difamação distribuída em pelo menos dez aparições na TV.

Urna e metro quadrado: o preço político do projeto

A conta chegou nas urnas. Nas primárias de 23 de junho de 2026, apoiadores-chave do projeto perderam eleições, incluindo dois comissários do condado de Box Elder e o presidente do Senado estadual, Stuart Adams. Resultado prático: o projeto encolheu. A área caiu para cerca de 20 mil acres, metade do tamanho original, e a meta de energia recuou de 9 GW para aproximadamente 1 GW.

Quem fiscaliza um projeto desse porte quando o próprio investidor lança acusações sem provas contra críticos locais? Em Utah, por ora, a resposta veio da combinação de mobilização popular, voto e Judiciário — não de um órgão regulador dedicado a data centers.


Atualização (01/10, 16:07): Atualização: O embate judicial entre Kevin O'Leary e os moradores de Utah que o acusam de difamação ganhou um novo capítulo em setembro. O bilionário e a Fox News Network pediram a um juiz federal que arquive o processo movido por Joshua Kanter (Alliance for a Better Utah) e Gabrielle Finlayson (Elevate Strategies), que o acionaram por tê-los chamado de "proxies" do governo chinês durante a disputa pelo data center Stratos. Na defesa, O'Leary e a emissora argumentam que as falas — feitas em entrevistas à âncora Maria Bartiromo e a outros programas da Fox — eram opinião e "hipérbole retórica", não afirmações factuais passíveis de processo.

O pedido de arquivamento ocorre meses depois de o próprio O'Leary recuar publicamente das acusações: em junho, ele já havia admitido em rede social não ter evidências de que os críticos do projeto fossem financiados pela China ou pelo Partido Comunista Chinês. O caso agora segue para análise do juiz, enquanto o projeto Stratos — reduzido a cerca da metade do tamanho originalmente proposto — continua sendo o foco da resistência popular na região.

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