
MP-PA investiga 1º data center de IA da Amazônia por risco climático
O BEL1, primeiro data center voltado à IA na Amazônia, virou alvo de inquérito do Ministério Público do Pará após denúncia sobre riscos de ilha de calor, sobrecarga elétrica e falta de licenciamento ambiental.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Belém, que já se prepara para sediar a COP30, ganhou também o título de sede do primeiro data center voltado a inteligência artificial de toda a Amazônia. O projeto, batizado de BEL1 e tocado pela Elea Data Centers em parceria com a AXIA Energia, prevê investimento de R$ 250 milhões e capacidade inicial de 7,5 megawatts — energia suficiente para abastecer mais de 22,5 mil residências. É pouco diante do apetite futuro: a expansão projetada para 100 MW equivaleria ao consumo de cerca de 500 mil casas de padrão médio.
Pois é justamente esse apetite que despertou a atenção do Ministério Público do Estado do Pará (MP-PA). Um inquérito civil foi aberto depois que a deputada estadual Lívia Duarte (PSOL) pediu fiscalização preventiva, em julho, alertando para riscos de sobrecarga na rede elétrica, consumo hídrico para resfriamento de GPUs e ausência de um plano de mitigação climática. A localização não é trivial: o empreendimento fica na Avenida Artur Bernardes, na zona portuária de Belém, perto da subestação de alta tensão de Miramar — e, segundo o próprio MP-PA, sem que consultas públicas tivessem sido feitas com ribeirinhos e moradores vizinhos, nem pedidos de licenciamento ambiental protocolados nas secretarias estadual e municipal.
O que é uma "ilha de calor" e por que isso importa
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
Imagine uma cidade inteira que já é mais quente que o campo ao redor — é o efeito clássico do asfalto e do concreto retendo calor. Agora concentre isso em um único prédio recheado de processadores trabalhando 24 horas por dia. É esse o temor por trás do termo "ilha de calor", citado pelo MP-PA. Um estudo da Universidade de Cambridge, mencionado na reportagem original, estima que data centers podem elevar a temperatura média local em até 2°C, com picos de 9,1°C — nada trivial numa região onde a sensação térmica já beira os 34°C.
Dois lados da mesma GPU
A Elea rebate as preocupações afirmando que o resfriamento será feito por ar-condicionado (tecnologia DX), com consumo hídrico zero, e que a energia virá de contratos de fonte 100% renovável. A empresa também diz que estudos de impacto térmico mais aprofundados só serão feitos se e quando o projeto avançar para a fase de 100 MW — o que, para os críticos, é como prometer checar o freio depois que o carro já estiver na estrada.
O imbróglio expõe um vácuo regulatório real: o Brasil ainda não tem uma norma ambiental específica para data centers, segundo o próprio MP-PA. Enquanto a inteligência artificial promete acelerar tudo à sua volta, a legislação brasileira corre atrás — e a Amazônia, com sua importância climática global, virou o primeiro grande teste desse descompasso.