
Museu espanhol recria a Cray-1 com 30 Mac Minis "obsoletos"
No Museo de Historia de la Computación, na Espanha, uma réplica em tamanho real do supercomputador Cray-1 dos anos 1970 ganhou vida com processadores de 30 Mac Minis descartados, somando até 1,5 teraflops.
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
Uma Cray-1 que roda de verdade, feita de sobra de Apple
No Museo de Historia de la Computación, instalado em Majadas de Tiétar, na região espanhola da Extremadura, existe agora uma réplica em tamanho real da Cray-1 — o supercomputador que definiu o que era "potência bruta" em 1976. Só que, por dentro, não tem nada daquela engenharia de Seymour Cray. Tem 30 Mac Minis que, de outra forma, estariam juntando poeira em algum estoque de TI.
O projeto levou mais de um ano e meio para ficar pronto e foi apresentado ao público em 26 de setembro. Carlos Izquierdo, diretor do museu, é quem está à frente da iniciativa, que também serve de mote para marcar os 50 anos da Cray-1 e da própria Apple — ambas fundadas em 1976.
Foto: reprodução/neoteo.com
Sobra de Apple Store virando cluster
A receita é mais sofisticada do que simplesmente empilhar Mac Minis numa carcaça retrô. São 25 unidades dual-core i5 e cinco quad-core i7, a maioria de 2012 e duas de 2014 — ou seja, máquinas que a Apple já considera peça de museu há tempos, literalmente. Juntas, elas formam um cluster real, orquestrado via macOS Mojave (10.14), escolhido justamente por ter suporte nativo ao MPI, o protocolo que permite aos nós dividirem tarefas entre si.
O resultado: 64 núcleos ativos entregando 1,3 teraflops em testes recentes, com pico teórico de 1,5 teraflops quando os 70 núcleos disponíveis entram em ação. Para comparar: a Cray-1 original, a própria, rodava a cerca de 160 megaflops de desempenho teórico. Isso significa que um punhado de Mac Minis "obsoletos" — hardware que ninguém mais quer — entrega hoje uma fração pequena de esforço e ainda assim multiplica por milhares a capacidade da máquina que custava milhões de dólares nos anos 1970.
Retrô por fora, cluster por dentro
A estrutura reproduz o desenho característico em forma de "C" da Cray-1, com os bancos estofados ao redor do corpo central, pintada em verde, branco e preto — as cores da bandeira da Extremadura. Um console vintage com três telas completa a ambientação, enquanto o resfriamento é passivo, por convecção, usando racks de aço e bandejas de alumínio no lugar dos ventiladores originais.
O museu também guarda dois Cray CX1 originais de 2004 e uma Raspberry Pi rodando emuladores de sistemas antigos — mostrando que a casa inteira é dedicada a esse tipo de arqueologia computacional.
O que fica desse upcycling
Mais do que uma curiosidade estética, o projeto é um recado prático: hardware "velho" raramente é lixo. Um Mac Mini de 2012 não compete com nada que a Apple vende hoje, mas distribuído em cluster, ele ainda processa matemática de sobra para fins educativos, demonstrações e até cargas reais de MPI. Antes de descartar aquele Mac Mini empoeirado na gaveta, vale lembrar que ele ainda tem ciclos de CPU — e, juntando alguns, dá pra montar uma pequena homenagem a qualquer clássico da computação.