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IA01 de nov. de 2026, 22:03

Não acredita em Deus? Ainda dá pra pedir isenção religiosa de usar IA no trabalho

Nos EUA, um funcionário humanista conseguiu dispensa formal de usar inteligência artificial no trabalho por motivo de consciência, sem citar nenhuma divindade. O caso reabre um debate que também deve chegar às empresas brasileiras.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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O caso que não tem nada de religioso (ou tem tudo)

David Durman, administrador de pesquisa na Universidade de Kentucky, instituição pública americana, conseguiu algo inédito: uma isenção formal para não usar inteligência artificial no trabalho, concedida com base em proteção legal para convicções religiosas. O detalhe é que Durman não professa fé em nenhuma divindade — ele se identifica como humanista secular, uma visão de mundo baseada em ética e razão, sem apelo ao sobrenatural.

Em bom português: nos Estados Unidos, a lei trabalhista (Título VII do Civil Rights Act) protege não só religiões tradicionais, mas também sistemas de crença profundamente arraigados que funcionam como uma religião na vida da pessoa — e isso inclui o humanismo. Foi essa brecha que a American Humanist Association, organização americana que defende os direitos de ateus e humanistas, usou para sustentar o pedido de Durman junto à universidade.

Por que ele recusa a ferramenta

Quando a universidade começou a cobrar o uso de IA no fluxo de trabalho, Durman se incomodou. Para ele, pensar criticamente e fazer julgamentos éticos por meios próprios é a própria prática moral de ser humano; terceirizar esse esforço para um algoritmo mina sua capacidade de agir como agente moral. Ele também cita preocupações ambientais, risco a empregos e uso não autorizado de obras criativas no treinamento de modelos de IA. A universidade aceitou o pedido em setembro, dizendo que cada caso é avaliado conforme as responsabilidades do cargo.

Os dois lados da moeda

Por um lado, o caso valida uma preocupação legítima: a pressa em empurrar IA para todo fluxo de trabalho, sem distinguir onde ela ajuda e onde substitui julgamento humano que importa. Por outro, abre uma porta incômoda — se qualquer convicção pessoal forte vira motivo de isenção, empresas podem enfrentar uma enxurrada de pedidos difíceis de avaliar com critério.

No Brasil, a legislação trabalhista não tem dispositivo idêntico ao Título VII americano, e a obrigatoriedade de uso de IA corporativa ainda é tema recente nas empresas locais. Mas a discussão de fundo — até onde a empresa pode exigir que o funcionário use determinada ferramenta — tende a desembarcar por aqui à medida que a adoção de IA se torna política de RH em mais companhias.

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