
NASA busca tecnologias para energia e oxigênio em base lunar
A agência abriu chamada para propostas de sistemas de energia, produção de oxigênio a partir do solo lunar e fabricação de materiais voltados a uma futura base no polo sul da Lua.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: viver na Lua exige reinventar até o ar que se respira
Não dá pra levar da Terra tudo o que uma base lunar permanente vai precisar — nem energia, nem oxigênio, nem material de construção. É esse o problema concreto que a NASA está tentando resolver agora, com uma chamada de propostas para empresas, universidades e organizações desenvolverem tecnologias-chave para a exploração do polo sul lunar.
O que é confirmado
A agência abriu, em 8 de setembro, a solicitação final do Lunar Enabling Infrastructure Accelerator (LEIA), parte do programa NextSTEP-3 conduzido pelo NASA Glenn Research Center. O edital já vinha em gestação desde maio, com sinopse publicada em 19 de maio e versão preliminar em 29 de junho.
São cinco frentes tecnológicas específicas:
- Energia solar vertical: painéis capazes de gerar, gerenciar, distribuir e armazenar energia de forma contínua, mesmo em condições de iluminação difíceis do polo sul lunar;
- Produção de oxigênio in situ: extração do gás a partir do regolito (o solo lunar), reduzindo a dependência de suprimentos vindos da Terra;
- Geradores de radioisótopos: fonte de energia nuclear pensada para operar em crateras permanentemente sombreadas e áreas remotas;
- Manufatura avançada: produção de peças e estruturas na própria Lua;
- Nanomateriais: ampliar a disponibilidade comercial desses materiais para uso em missões lunares.
Segundo Greg Stover, diretor da Divisão de Pesquisa Avançada e Tecnologia da NASA, o objetivo declarado é "desenvolver as capacidades e a infraestrutura necessária para uma presença sustentável" no satélite. As propostas selecionadas precisam amadurecer as soluções até os níveis 5 e 6 na escala de prontidão tecnológica (TRL) da agência — ou seja, sair do papel e passar por testes em solo, mas ainda sem validação em ambiente lunar real.
A chamada está aberta a empresas privadas, instituições acadêmicas e organizações sem fins lucrativos dos Estados Unidos. Parceiros internacionais podem participar, desde que integrados a equipes lideradas por organizações americanas.
O que ainda é plano, não realidade
Nenhuma dessas tecnologias existe hoje pronta para uso lunar — é justamente essa lacuna que o edital tenta preencher. Não há cronograma público de quando (ou se) uma base humana permanente sairá do papel, nem confirmação de quais propostas serão financiadas. O texto do edital também não estabelece um orçamento total divulgado publicamente.
A iniciativa se conecta ao programa Artemis, mas funciona como uma frente paralela de desenvolvimento tecnológico de infraestrutura — não como parte do cronograma de pousos tripulados em si, que segue seu próprio caminho e seus próprios atrasos.
Por que isso importa
Energia, oxigênio e material de construção são os três pilares mais citados por engenheiros aeroespaciais como pré-requisito para qualquer presença humana lunar de longo prazo. Resolver esses gargalos com tecnologia produzida a partir de recursos locais — o conceito de ISRU, sigla em inglês para utilização de recursos in situ — é visto como condição para tornar a exploração lunar economicamente viável, em vez de depender de reabastecimentos constantes vindos da Terra.