
NASA flagra cratera de 18 metros aberta na Lua por resto de Falcon 9
Imagens do LRO mostram a marca deixada por um estágio do Falcon 9 que colidiu com a Lua em 5 de agosto. O evento não trouxe risco à Terra, mas reacende o debate sobre lixo espacial.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: um buraco de 18 metros de largura, mais ou menos o comprimento de dois ônibus urbanos enfileirados, mas com menos de 3 metros de profundidade
A NASA divulgou imagens de uma nova cratera na superfície da Lua, formada pelo impacto de um estágio superior do foguete Falcon 9, da SpaceX. As fotos foram captadas pela câmera de ângulo estreito da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) entre os dias 11 e 12 de agosto, seis dias depois de o objeto atingir o solo lunar.
O que é fato confirmado
O impacto ocorreu em 5 de agosto de 2026, por volta das 6h35 (horário de Brasília, considerando o UTC informado pelas fontes), a uma velocidade estimada de 8.700 km/h. O objeto era o estágio superior do Falcon 9 identificado como 2025-010D, com cerca de 4 toneladas, lançado em janeiro de 2025 para levar ao espaço os módulos robóticos Blue Ghost 1, da Firefly Aerospace, e Hakuto-R Mission 2, da ispace japonesa. Depois de cumprir sua função, o estágio ficou à deriva em órbita até colidir com a Lua de forma não planejada.
A cratera resultante fica perto da cratera Einstein, nas coordenadas 19,4759° de latitude norte e 266,7138° de longitude leste, e tem cerca de 18 metros de largura por menos de 3 metros de profundidade. O achado foi confirmado por astrônomos que usaram um telescópio do Observatório Paranal, no Chile, ao detectarem variações nas linhas de emissão de luz no momento do choque, e também pela sonda Danuri, da Coreia do Sul, que localizou o ponto de impacto horas depois, com precisão de cerca de 1 km. Segundo a NASA, o evento não representou risco para a Terra.
O que é contexto (não é a mesma coisa que este caso)
Detritos atingirem a Lua não é exatamente raro, mas também está longe de ser rotina — e a maioria dos casos documentados foi proposital. Em 2009, a NASA jogou de propósito um estágio Centaur contra a Lua na missão LCROSS, justamente para estudar a nuvem de detritos gerada pelo impacto (foi assim que se confirmou a presença de gelo de água no solo lunar). Durante o programa Apollo, partes de foguetes e módulos também foram arremessadas contra a superfície para gerar dados sísmicos. Um caso mais parecido com o atual, de colisão não intencional, aconteceu em 2022, quando um estágio de foguete chinês abriu duas crateras no lado oculto da Lua.
O episódio do Falcon 9 volta a colocar em pauta um problema crescente: sem atmosfera, a Lua não “queima” lixo espacial como a Terra faz — qualquer objeto em rota de colisão simplesmente bate na superfície. Com o aumento de missões lunares previstas para os próximos anos, cientistas citam esse tipo de evento como argumento para políticas mais rígidas de descarte de estágios de foguete pós-missão.