
NASA retoma missões a Vênus após escapar de corte orçamentário
DAVINCI e VERITAS tiveram financiamento restaurado pelo Congresso dos EUA e devem ser as primeiras missões dedicadas da NASA ao planeta em quase quatro décadas.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: quase 40 anos sem ir a Vênus
A última vez que a NASA mandou uma missão dedicada a Vênus foi a sonda Magellan, lançada em 1989 e que operou até 1994, mapeando o planeta por radar. Passadas quase quatro décadas, duas missões que estavam ameaçadas de cancelamento — a DAVINCI e a VERITAS — tiveram o financiamento restaurado pelo Congresso americano neste mês e voltaram a acelerar o cronograma.
O que está confirmado
A proposta de orçamento da Casa Branca para o ano fiscal de 2026 previa um corte de 24% em todo o orçamento da NASA (de US$ 24,8 bilhões para US$ 18,8 bilhões), com a área de ciência planetária perdendo cerca de 32%. Entre os projetos na lista de cancelamento estavam DAVINCI, VERITAS e a contribuição da agência ao orbitador europeu EnVision, além de outras missões científicas em andamento.
O Congresso rejeitou os cortes mais profundos e aprovou um orçamento final de US$ 24,44 bilhões para a NASA, com US$ 7,25 bilhões reservados à Diretoria de Ciência. A DAVINCI (Deep Atmosphere Venus Investigation of Noble gases, Chemistry, and Imaging), que vai descer uma sonda com paraquedas pela atmosfera venusiana e capturar as primeiras imagens diretas da superfície desde 1982, recebeu US$ 99 milhões e já completou simulações de descida pela atmosfera do planeta. Lançamento previsto: dezembro de 2030.
Já a VERITAS (Venus Emissivity, Radio science, InSAR, Topography, And Spectroscopy), que vai mapear a superfície por radar a partir da órbita, recebeu US$ 36,1 milhões depois de ficar com apenas US$ 1,5 milhão em 2024 — um corte que a equipe chamou de “cancelamento silencioso”. A cientista responsável pela missão, Sue Smrekar, do Jet Propulsion Laboratory da NASA, disse que “é muito bom ter financiamento de engenharia novamente para seguir em frente”. Lançamento previsto: novembro de 2032.
O que é hipótese ainda
A própria NASA já reconheceu que talvez não consiga avançar simultaneamente com as três frentes ligadas a Vênus — DAVINCI, VERITAS e a parceria com o EnVision. Parte do alívio orçamentário veio de uma lei de reconciliação fiscal que destinou cerca de US$ 10 bilhões à agência, majoritariamente para voo espacial humano, o que teria reduzido a pressão sobre o orçamento científico. Resta saber se o Congresso vai manter esse nível de investimento nos próximos ciclos orçamentários — e se as duas missões vão conseguir, de fato, decolar nas datas hoje projetadas.