
NASA testa telescópio de vidro e cerâmica para caçar ondas gravitacionais
A agência desenvolve, com a parceira ESA, telescópios feitos de Zerodur para a missão LISA, que vai detectar ondas gravitacionais no espaço a partir de meados da década de 2030.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: a LISA vai medir variações de distância menores do que a largura de um átomo de hélio, entre espaçonaves separadas por 2,5 milhões de quilômetros — mais de seis vezes a distância da Terra à Lua. É nessa margem de precisão quase inimaginável que a NASA está apostando ao desenvolver os telescópios de uma das missões mais ambiciosas da próxima década para estudar o universo.
O que já é fato
A NASA confirmou o desenvolvimento de um protótipo de telescópio, batizado de Engineering Development Unit Telescope, feito inteiramente de Zerodur — um composto de vidro e cerâmica de tom âmbar usado em aplicações de altíssima precisão. O material foi escolhido porque resiste a mudanças de forma em diferentes temperaturas, o que é essencial para manter a estabilidade dos instrumentos no vácuo do espaço. O espelho primário do telescópio recebe ainda um revestimento de ouro, para refletir melhor os feixes de laser infravermelho usados nas medições.
Foto: reprodução/esa.int
O protótipo foi fabricado pela empresa L3Harris Technologies, em Rochester, no estado de Nova York, e chegou ao Goddard Space Flight Center da NASA em maio. Mais recentemente, em outubro de 2026, a agência fechou um novo contrato para a construção de uma Unidade de Teste de Engenharia (ETU) — descrita como uma das últimas etapas antes da produção dos equipamentos que de fato irão ao espaço.
A missão LISA e a parceria com a ESA
A LISA (Laser Interferometer Space Antenna) é a missão que vai caçar ondas gravitacionais a partir do espaço, liderada pela ESA (Agência Espacial Europeia, parceira da NASA em diversos projetos espaciais) em colaboração com a agência americana. A NASA é responsável por fornecer os seis telescópios gêmeos que equiparão a missão — dois para cada uma das três espaçonaves que vão compor o sistema.
Essas três espaçonaves vão orbitar a Terra em formação triangular, com cada lado da figura medindo cerca de 2,5 milhões de quilômetros. Elas vão trocar feixes de laser infravermelho entre si para detectar distorções mínimas causadas pela passagem de ondas gravitacionais — ondulações no espaço-tempo previstas por Einstein e geradas por eventos como a fusão de buracos negros a bilhões de anos-luz de distância.
O que ainda é plano futuro
Aqui vale separar o que já existe do que ainda está por vir: o protótipo e o contrato da ETU são passos concretos de engenharia, mas a construção dos telescópios que de fato irão a bordo das espaçonaves ainda depende de etapas futuras de validação. O lançamento da missão LISA está previsto para meados da década de 2030 — sem data exata definida publicamente até o momento. Quando estiver em operação, a expectativa científica é que a missão também ajude a mapear pares compactos de estrelas, como anãs brancas, estrelas de nêutrons e buracos negros de massa estelar, ampliando o que hoje se sabe sobre os cantos mais extremos do universo.