
Netflix vê audiência cair mesmo após aumentar preços no Brasil
Levantamento interno mostra que assinantes abrem o app em menos dias por mês e assistem menos conteúdo do que há dois anos, justo quando a Netflix reajustou mensalidades em até 23,9% no país.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Assinantes abrem o app em menos dias por mês
A métrica interna que a Netflix usa para medir engajamento, batizada de QPD (Qualified Play Days, ou "dias qualificados de reprodução"), aponta queda consistente na frequência de uso do aplicativo. Segundo reportagem da Bloomberg, com base em fontes familiarizadas com dados confidenciais da empresa, os assinantes hoje acessam o app em menos dias por mês e assistem a menos conteúdo do que há dois anos — um recuo que começou em 2022, quando a Netflix passou a restringir o compartilhamento de senhas, e que se mantém apesar de oscilações pontuais positivas.
O tempo total passado no aplicativo até cresceu alguns pontos percentuais no primeiro semestre, mas a própria Netflix reconhece que o avanço reflete apenas o crescimento da base de assinantes, não um aumento de engajamento por usuário. Dados da Apptopia, empresa que monitora uso de aplicativos móveis, reforçam o cenário: a parcela de assinantes nos EUA que simplesmente não abriu o app no terceiro trimestre subiu 16,6% na comparação anual.
Foto: reprodução/antihype.com.br
Preço sobe, mas a empresa nega relação direta
O recuo de engajamento ocorre num momento delicado para a imagem da Netflix no Brasil. A empresa anunciou reajuste em todos os planos no país — o primeiro desde 2024 —, com altas de até 23,9%. O plano com anúncios foi de R$ 20,90 para R$ 25,90, o Padrão subiu de R$ 44,90 para R$ 51,90 e o Premium passou de R$ 59,90 para R$ 71,90.
Executivos da companhia, no entanto, evitam atribuir a queda de engajamento ao preço mais alto. Internamente, a Netflix aponta outros fatores: o redesenho da interface do aplicativo, a concorrência mais acirrada entre serviços de streaming, marketing considerado fraco e uma grade de lançamentos menos atraente. A empresa também afirmou que a taxa de cancelamento nos Estados Unidos permaneceu estável, em 2%, e que os reajustes não provocaram picos de cancelamento fora do padrão histórico.
Por que isso importa para o negócio
Engajamento é o termômetro que sustenta o modelo de receita da Netflix, hoje cada vez mais dependente de publicidade e de preços mais altos por assinante, já que o crescimento de novos usuários tende a desacelerar nos mercados maduros. Se o tempo de tela por assinante continua encolhendo enquanto as mensalidades sobem, a equação fica mais apertada: anunciantes pagam por atenção, e menos dias de uso por mês significam menos inventário publicitário e menor poder de precificação no médio prazo — mesmo que, por ora, os números de cancelamento não acendam alerta vermelho.