
Netuno foi calculado no papel antes de ser visto no telescópio
Irregularidades na órbita de Urano levaram dois matemáticos, trabalhando de forma independente, a prever onde estaria um planeta ainda não observado. Netuno foi encontrado exatamente ali, em 1846.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Pra escala humana: Netuno está cerca de 30 vezes mais distante do Sol do que a Terra — tão longe que, até 1846, ninguém sabia que ele existia. E, ainda assim, sua posição foi calculada numa mesa, com papel e lápis, antes de qualquer telescópio apontar para o lugar certo.
O problema começou com Urano
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
Desde a descoberta de Urano, em 1781, astrônomos notavam que sua órbita não se comportava como as leis de Newton previam. Em 1821, o francês Alexis Bouvard publicou tabelas orbitais de Urano que já expunham essas discrepâncias, sem conseguir explicá-las. A hipótese mais aceita era a de que outro corpo celeste, ainda não observado, estivesse puxando gravitacionalmente a órbita de Urano.
Dois matemáticos, um cálculo parecido
A parte confirmada e bem documentada da história: dois cientistas, de forma independente, tentaram resolver o problema fazendo o caminho inverso — a partir das perturbações observadas em Urano, calcular onde estaria o corpo responsável. Urbain Le Verrier, em Paris, e John Couch Adams, em Cambridge, na Inglaterra, chegaram a previsões semelhantes sobre a posição do planeta desconhecido. Le Verrier apresentou seus cálculos à Academia de Ciências de Paris em novembro de 1845 e voltou, em junho de 1846, com a previsão da posição do corpo perturbador.
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A confirmação no telescópio
Le Verrier enviou seus cálculos ao Observatório de Berlim, onde o astrônomo Johann Galle, com a ajuda de Heinrich Louis d'Arrest, observou Netuno na noite de 23 de setembro de 1846 — a menos de 1 grau de distância da posição prevista por Le Verrier. Foi o primeiro planeta da história a ser previsto matematicamente antes de ser observado.
A disputa que ficou pra depois
O reconhecimento científico imediato foi quase todo para Le Verrier: a Royal Society britânica concedeu a ele a medalha Copley em 1846, sem citar Adams. Isso porque os cálculos de Adams não haviam sido publicados a tempo — o astrônomo britânico James Challis chegou a observar Netuno antes de Galle, mas não o identificou como um planeta novo. Hoje o consenso histórico reconhece Le Verrier e Adams como autores independentes da mesma previsão, com Galle e d'Arrest como os primeiros a confirmar visualmente o planeta no céu.