Neutrinos podem acelerar ou travar a explosão de uma supernova
Um estudo da Universidade Waseda mostra que a troca de identidade dos neutrinos pode acelerar ou travar a explosão de uma supernova, dependendo da massa da estrela.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Uma supernova concentra, em segundos, mais energia do que o Sol libera em toda a sua vida — e quase toda ela sai na forma de neutrinos, partículas tão pequenas e esquivas que atravessam planetas inteiros sem esbarrar em nada. Entender o comportamento delas dentro do núcleo de uma estrela em colapso é um dos maiores gargalos para explicar por que algumas estrelas explodem e outras simplesmente desabam em buracos negros, sem estrondo.
O que o estudo mostra
Uma equipe liderada por Ryuichiro Akaho, da Universidade Waseda, no Japão, com Hiroki Nagakura, do Observatório Astronômico Nacional japonês, e Shoichi Yamada, também de Waseda, rodou simulações multiângulo de hidrodinâmica de neutrinos para observar um fenômeno chamado "conversão rápida de sabor" (fast flavor conversion, ou FFC) — quando um neutrino muda de identidade entre os três "sabores" conhecidos (elétron, múon e tau) dentro do núcleo estelar em colapso.
O resultado, publicado na revista científica Physical Review Letters em maio, mostrou um efeito bifurcado: em estrelas progenitoras mais leves — as menores capazes de gerar uma supernova —, a troca de sabor acelera a explosão. Em estrelas bem mais massivas, de até 20 vezes a massa do Sol, o efeito é o oposto: a mesma FFC atrasa ou inibe a explosão.
O que é confirmado e o que ainda é hipótese
O resultado vem de simulação computacional validada teoricamente, não de observação direta — não há telescópio ou detector que tenha flagrado neutrinos trocando de sabor dentro de uma supernova real acontecendo agora. Os modelos padrão de colapso estelar ainda não incorporam totalmente essa física de neutrinos, e os próprios autores tratam o achado como um passo para refinar simulações futuras, não como palavra final sobre o mecanismo das supernovas.
Ainda assim, o achado dá uma pista concreta sobre por que estrelas de massas parecidas podem ter destinos tão diferentes: para algumas, os neutrinos empurram a explosão adiante; para outras, seguram a explosão até que — ou se — ela finalmente aconteça.