
NIH vai usar parte do orçamento de saúde para financiar o Pentágono
Acordo assinado em segredo entre o Departamento de Defesa dos EUA e a agência de pesquisa biomédica permite transferir verba de doenças infecciosas para projetos militares até 2036.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine o hospital de pesquisa cedendo verba pro quartel ao lado
O NIH (National Institutes of Health), a principal agência de pesquisa biomédica dos Estados Unidos, vai destinar parte do seu orçamento para financiar projetos do Departamento de Defesa americano. O acordo foi assinado em segredo no início de agosto de 2026 entre as duas agências e só veio a público em 3 de setembro, quando a deputada Rosa DeLauro, principal democrata na Comissão de Orçamento da Câmara dos EUA, denunciou o caso.
O que está confirmado
Segundo o texto do acordo interagências, obtido por veículos como a revista Nature e a Ars Technica, a verba sai do orçamento do NIAID (National Institute of Allergy and Infectious Diseases, o instituto do NIH dedicado a doenças infecciosas), que recebeu US$ 6,6 bilhões do Congresso americano em 2026. O dinheiro será transferido para o gabinete do Secretário Assistente de Guerra e usado, segundo o próprio acordo, para financiar "o desenvolvimento avançado de contramedidas médicas contra pandemias de influenza, ameaças químicas, biológicas, radiológicas e nucleares e doenças infecciosas emergentes". O acordo tem validade até 2036.
De acordo com a apuração da Nature, o Departamento de Defesa chegou a pedir acesso a até um terço do orçamento do NIAID, mas foi orientado a se contentar com algo próximo de 10% do total. Ainda assim, os valores envolvidos somam centenas de milhões de dólares em projetos que hoje pertencem à pesquisa civil contra doenças como gripe, malária, tuberculose, HIV e ebola.
O que é crítica, não fato assentado
A parte controversa do caso é o processo, não necessariamente o objetivo declarado. DeLauro classificou o acordo como "esta tentativa secreta e ultrajante de desviar verba de pesquisa do NIH" e cobrou o cancelamento imediato, argumentando que o Congresso e o público não foram informados antes da assinatura. Cientistas e organizações da área de saúde global também reagiram, alertando que o desvio pode esvaziar programas de vigilância e resposta a doenças infecciosas emergentes — mas isso ainda depende de como, na prática, os projetos serão redistribuídos, algo que as agências não detalharam publicamente até o momento.
Por que importa
O episódio acontece num momento em que o orçamento federal de pesquisa nos EUA já vinha se deslocando para a área de defesa: a proposta orçamentária para o ano fiscal de 2026 previa alta de 23% no orçamento de P&D do Pentágono, enquanto o do NIH era projetado para cair. O acordo mostra esse movimento acontecendo na prática, dentro da própria estrutura do NIH.