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Ciência06 de out. de 2026, 21:28

Nobel de Física 2026 premia Francis Halzen por caçar neutrinos no gelo

Físico belga radicado nos EUA venceu o prêmio por liderar o IceCube, observatório que transforma um quilômetro cúbico de gelo antártico em detector de partículas cósmicas quase sem massa. Comitê destacou a descoberta de neutrinos de alta energia vindos de fora da Via Láctea.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: um detector do tamanho de um bairro, enterrado no gelo

Imagine cavar um cubo de um quilômetro de aresta dentro do gelo da Antártida e espetar nele mais de 5 mil sensores de luz, a cerca de 1,6 km de profundidade. Foi isso que uma equipe internacional liderada pelo físico belga Francis Halzen construiu ao longo de mais de duas décadas — e esse instrumento, o IceCube Neutrino Observatory, um observatório que usa o gelo polar como detector gigante de partículas subatômicas quase imperceptíveis, acaba de render a Halzen o Prêmio Nobel de Física 2026.

A Real Academia Sueca de Ciências concedeu o prêmio a Halzen, hoje professor da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, "por contribuições decisivas ao Observatório de Neutrinos IceCube e pela descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica". Mark Pearce, presidente do comitê Nobel de Física, resumiu o feito dizendo que Halzen liderou uma equipe internacional de pesquisadores e engenheiros que proporcionou um instrumento fantástico.

Foto: reprodução/scientificamerican.com

O que é confirmado

Nascido em 1944 na cidade belga de Tienen, Halzen teve a ideia de usar o gelo do Polo Sul como detector de neutrinos em 1988 — quase quatro décadas atrás. O projeto evoluiu a partir de um antecessor menor, o AMANDA, até se transformar no IceCube, que atingiu seu tamanho final em 2011: um cubo de gelo de um quilômetro cúbico, equipado com cerca de 5.160 sensores óticos distribuídos em 86 cabos enterrados na calota polar.

Foto: reprodução/nature.com

O princípio é simples de explicar, difícil de executar: neutrinos de alta energia vindos do espaço atravessam a Terra quase sem interagir com nada, mas, muito raramente, colidem com um núcleo atômico dentro do gelo cristalino. Esse choque produz um clarão de luz que os sensores do IceCube captam, permitindo reconstruir de onde a partícula veio e com que energia viajava. Poucos anos depois de concluído, o observatório confirmou a primeira detecção de neutrinos de altíssima energia originados fora do Sistema Solar — uma janela observacional nova para eventos cósmicos violentos, como explosões estelares e núcleos de galáxias ativas.

O que ainda é investigação em curso

Identificar com precisão as fontes individuais desses neutrinos cósmicos — distinguir qual buraco negro ou qual remanescente de supernova emitiu cada partícula captada — segue sendo trabalho em andamento para a colaboração do IceCube, que reúne pesquisadores de diversos países.

Em entrevista após o anúncio, Halzen disse não esperar a notícia e dividiu o mérito, dizendo esperar que o reconhecimento se reflita nas pessoas corajosas que se juntaram a ele no início do projeto. O prêmio, de 12 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,2 milhão), será entregue em cerimônia em Estocolmo no dia 10 de dezembro — mesma data em que também serão formalizadas as honras do Nobel de Medicina 2026, anunciado dias antes no mesmo ciclo de premiações.

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