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Ciência09 de out. de 2026, 11:01

Nobel de Química 2026 premia descoberta sobre a lateralidade das moléculas

Henri Kagan e Kenso Soai venceram o Nobel de Química 2026 por descobertas sobre reações que isolam uma única forma espelhada de uma molécula — um fenômeno ligado ao mistério de por que a vida na Terra usa só uma 'mão' química.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Para escala humana

Pra escala humana: pense nas suas duas mãos. Elas são imagens espelhadas uma da outra — mesma estrutura, mas impossíveis de sobrepor perfeitamente. É essa propriedade, chamada de quiralidade, que rendeu o Prêmio Nobel de Química 2026 aos pesquisadores Henri B. Kagan, da Université Paris-Sud (França), e Kenso Soai, professor emérito da Tokyo University of Science (Japão). O anúncio foi feito em 7 de outubro pela Academia Real das Ciências da Suécia.

O que está confirmado

Segundo o comitê do Nobel, o prêmio reconhece "a descoberta de efeitos não lineares e autocatálise em síntese orgânica assimétrica". Na prática, os dois laureados resolveram, em momentos diferentes, parte de um quebra-cabeça que intrigava químicos há mais de um século: como fazer uma reação produzir seletivamente apenas uma das duas versões espelhadas de uma molécula — os chamados enantiômeros —, em vez da mistura 50-50 que normalmente se obtém em laboratório.

Kagan demonstrou, em 1986, que catalisadores assimétricos podem gerar um excesso de uma forma molecular maior do que se esperava, por meio de efeitos não lineares. Já Soai, em 2003, descreveu uma reação autocatalítica — hoje conhecida como "reação Soai" — capaz de amplificar um pequeníssimo desequilíbrio inicial entre as duas formas até que praticamente só uma delas reste no final.

Essas descobertas têm aplicação direta na indústria farmacêutica: historicamente, remédios eram produzidos como mistura das duas formas espelhadas, e isso já causou efeitos colaterais graves — o caso mais citado é o da talidomida. Com as técnicas abertas por Kagan e Soai, é possível fabricar fármacos, aromas e fragrâncias com a forma molecular desejada isolada, reduzindo riscos.

O que é hipótese

Aqui entra a parte especulativa, e o próprio comitê do Nobel é cauteloso sobre isso. A vida na Terra é "homoquiral": os aminoácidos das proteínas e os açúcares do DNA usam, cada um, apenas uma das duas formas espelhadas possíveis. Por que isso aconteceu na origem da vida é um mistério ainda não resolvido.

O trabalho de Kagan e Soai não explica como a homoquiralidade biológica surgiu bilhões de anos atrás, mas mostra que esse tipo de desequilíbrio pode, em princípio, surgir e se amplificar espontaneamente a partir de condições químicas comuns — uma pista de mecanismo possível, não uma reconstituição do que de fato ocorreu na Terra primitiva.

Por que importa

Além do valor teórico para entender a origem da vida, a dupla deixou um legado prático: métodos de síntese assimétrica hoje usados rotineiramente na produção de medicamentos mais seguros. O prêmio, de 12 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,2 milhão), será dividido igualmente entre os dois cientistas.

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