
Nuvem de 1.800 km em Marte pode revelar física do gelo nunca vista antes
Um estudo publicado na Nature Geoscience sugere que a nuvem alongada do vulcão Arsia Mons se forma por nucleação homogênea do gelo, processo teórico que nunca havia sido documentado na atmosfera de nenhum planeta.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Uma nuvem do tamanho de meio Brasil
Pra escala humana: imagine uma nuvem que se estende por quase 1.800 km, uma distância equivalente à que separa São Paulo de Recife. É esse o tamanho da Arsia Mons Elongated Cloud (AMEC), formação atmosférica que surge quase todas as manhãs ao lado do vulcão marciano Arsia Mons durante a primavera e o verão do hemisfério sul de Marte, e que se dissipa completamente poucas horas depois.
A nuvem já era conhecida: foi flagrada em 2018 pela sonda Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), equipada com câmeras como a Visual Monitoring Camera e a High Resolution Stereo Camera. O que mudou agora é a explicação para como ela se forma — e é aqui que a história sai do campo da observação confirmada e entra no terreno do modelo teórico.
Foto: reprodução/phys.org
O que é modelo e o que é observação
Os dados de que a nuvem existe, mede cerca de 1.800 km e aparece de forma recorrente são observações diretas, coletadas ao longo de anos pela Mars Express. Já a explicação para sua formação é uma hipótese baseada em simulações: segundo o estudo, ventos que sobem a encosta do Arsia Mons — um vulcão de cerca de 20 km de altura — geram uma onda atmosférica que ergue uma camada de ar úmido em poucos minutos. Nesse processo, a temperatura cai cerca de 30°C em apenas dez minutos, e a umidade relativa dispara para níveis muito acima do que se observa na Terra.
Foto: reprodução/livescience.com
As simulações só reproduziram o comportamento real da nuvem quando os pesquisadores incluíram a nucleação homogênea do gelo: o vapor de água congelando diretamente em cristais de gelo, sem depender de partículas de poeira como núcleos de condensação. Esse mecanismo é descrito em livros-texto de física há décadas, mas nunca havia sido observado em ação na atmosfera de nenhum planeta — nem mesmo na Terra, onde a formação de nuvens costuma depender de aerossóis.
O que diz o estudo
A pesquisa, publicada na revista Nature Geoscience, foi liderada por Jorge Hernández-Bernal, do Laboratoire de Météorologie Dynamique, vinculado ao CNRS e à Sorbonne Université, em Paris, com participação de Anni Määttänen, Aymeric Spiga e François Forget. Segundo Hernández-Bernal, "o vapor de água se transforma diretamente em partículas de gelo da nuvem, sem nenhuma etapa intermediária".
Colin Wilson, cientista do projeto Mars Express na ESA, destacou que a sonda "descobriu a AMEC, acompanhou e monitorou o fenômeno por anos e agora está ajudando a revelar os segredos de sua formação". Os autores ressaltam que a conclusão ainda depende de validação adicional: é o modelo que melhor reproduz o comportamento observado da nuvem, não uma confirmação direta do mecanismo microscópico em ação.