
Nvidia compra Hugging Face por US$ 12,9 bi e mira IA aberta
Nvidia fecha acordo definitivo para comprar a Hugging Face por cerca de US$ 12,9 bilhões, sua segunda maior aquisição da história, ampliando o controle sobre o ecossistema de modelos de IA abertos.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
São US$ 12,9 bilhões — esse é o número que a Nvidia, fabricante de chips gráficos e de IA líder em hardware para data centers, topou pagar pela Hugging Face, plataforma de compartilhamento e hospedagem de modelos de IA de código aberto conhecida como "o GitHub da IA". O acordo, anunciado em 3 de setembro, é a segunda maior aquisição da história da Nvidia, atrás apenas da compra de ativos da Groq, startup de chips de inferência de IA, por US$ 20 bilhões no fim do ano passado.
Como está estruturado o negócio
A transação se divide em duas partes: US$ 11,9 bilhões vão direto para os acionistas da Hugging Face, e outros US$ 1 bilhão ficam reservados como pacote de retenção em ações para os funcionários que migrarem para a Nvidia. O fechamento é esperado para o primeiro semestre de 2027, sujeito a aprovações regulatórias, e não deve ser trâmite simples dado o porte das duas empresas.
Foto: reprodução/cnbc.com
O salto de valuation é expressivo. Em 2023, a Hugging Face captou US$ 235 milhões numa rodada liderada pela Salesforce, fabricante de software corporativo, que a avaliou em US$ 4,5 bilhões. Em 2025, a startup recusou uma oferta da própria Nvidia de US$ 500 milhões, que a avaliaria em US$ 7 bilhões — sinal de que o apetite da fabricante de chips pela plataforma já vinha de longe.
Quem ganha, quem perde
A Hugging Face hospeda hoje cerca de 3 milhões de modelos, 1 milhão de aplicações e 500 mil datasets, usados por 18 milhões de desenvolvedores, mas fatura pouco perto disso: cerca de US$ 150 milhões anualizados, segundo a publicação The Information. É essa base de desenvolvedores, não a receita, que interessa à Nvidia: controlar a porta de entrada onde o mercado descobre e distribui modelos de IA reforça a demanda por GPUs e pelo ecossistema CUDA, plataforma de programação da Nvidia para suas placas.
O CEO da Nvidia, Jensen Huang, disse que "modelos abertos permitem que startups, empresas, universidades e instituições públicas construam sobre capacidades avançadas sem precisar treinar cada modelo do zero", e classificou o negócio como "um grande motor de crescimento" para a companhia. Já o CEO da Hugging Face, Clément Delangue, afirmou que procurou Huang no verão porque a plataforma "precisa de mais capacidade computacional, mais suporte, mais colaboração e mais visibilidade" para crescer.
Rivais de chip ficam em alerta
Quem sai perdendo, ao menos no papel, são rivais de hardware como AMD e Intel, fabricantes concorrentes de chips, além de esforços de silício próprio de Google, Amazon e OpenAI: todos dependem hoje da neutralidade da Hugging Face para distribuir modelos otimizados para além do ecossistema Nvidia. A Nvidia prometeu manter a plataforma aberta e permitir suporte a outros fornecedores de chips, mas o precedente é desconfortável: a tentativa da Nvidia de comprar a Arm, projetista de chips licenciados para toda a indústria, por US$ 40 bilhões, desmoronou em 2022 sob pressão de reguladores nos EUA, Reino Unido, União Europeia e China, justamente por risco à neutralidade do setor.