
Nvidia mobiliza US$ 500 bi para blindar valor de suas GPUs no mercado
A fabricante fechou memorandos com seis gigantes de Wall Street e vai garantir até 25% do valor residual de seus chips para destravar crédito de infraestrutura de IA. A jogada tenta evitar que GPUs envelhecidas virem lixo eletrônico caro antes da hora.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 500 bilhões para segurar o preço do chip
Cinco letras resumem o tamanho da aposta: US$ 500 bilhões. É o volume de capital de terceiros que a Nvidia quer mobilizar por meio de memorandos de entendimento assinados com seis gigantes de Wall Street — Apollo, BlackRock, Blackstone, Brookfield, Goldman Sachs e KKR — para financiar a construção de data centers de IA. Juntas, essas gestoras somam trilhões em ativos sob gestão: a Apollo tinha cerca de US$ 1,05 trilhão em junho, a Blackstone mais de US$ 1,3 trilhão e a Brookfield acima de US$ 1 trilhão.
O acordo, porém, ainda são memorandos, não contratos fechados — a própria Nvidia reconhece que as parcerias dependem da assinatura de acordos definitivos.
Foto: reprodução/cnbc.com
A garantia que muda o jogo
O ponto central do plano é uma garantia de valor: a Nvidia se comprometeu a cobrir, com dinheiro próprio, até 25% da diferença caso os chips dados como garantia em financiamentos não mantenham o valor esperado no mercado. Na prática, se um data center precisar liquidar GPUs para pagar dívida e o preço de revenda ficar abaixo do registrado nos livros, a Nvidia entra para cobrir parte do rombo.
É uma tentativa de resolver o problema que ronda todo o boom de IA: GPUs perdem valor rápido, e ninguém sabe ao certo quanto elas vão valer daqui a três ou quatro anos. Ao bancar parte desse risco, a Nvidia dá aos financiadores institucionais um chão de segurança para emprestar bilhões tendo hardware como colateral — tratando compute como se fosse imóvel comercial ou pedágio, ativo que se usa como garantia de crédito de longo prazo.
Quem ganha e quem carrega o risco
Quem ganha primeiro é a própria Nvidia: em vez de financiar diretamente seus clientes — como fez a Lucent Technologies nos anos 1990, ao emprestar para quem comprava seus equipamentos e depois viu o esquema desmoronar —, a companhia transfere o grosso do capital para investidores institucionais de longo prazo, mantendo só uma fatia do risco. Ganham também os operadores de data center, que passam a ter uma via de crédito baseada no próprio chip, e as gestoras parceiras, que enxergam no compute de IA uma nova classe de ativo "escassa e essencial", nas palavras do presidente da Apollo, Jim Zelter.
O lado que carrega risco é a própria Nvidia diante do que financistas chamam de "wrong way risk": as obrigações da empresa com a garantia crescem justamente quando a demanda por GPUs desaquece — momento em que suas receitas também sofrem. Jensen Huang saiu em defesa do modelo, chamando o chip da empresa de "ativo investível" em entrevista à CNBC, mas as comparações com a Lucent já rendem esclarecimentos públicos do CEO. Por trás do anúncio está o objetivo maior: criar um mercado secundário robusto para GPUs mais antigas, para que elas não virem sucata cara antes da hora.