
NY acusa TikTok de dar a adolescentes botão de segurança falso
Processo movido pelo estado de Nova York alega que o TikTok testou uma versão não funcional do recurso 'Algo Refresh' em milhares de jovens, enquanto monitorava efeito sobre tempo de uso e receita de anúncios.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
O estado de Nova York alega, em processo judicial movido pela procuradora-geral Letitia James, que o TikTok entregou a adolescentes e crianças um recurso de segurança "placebo" — ou seja, que aparentava funcionar, mas não produzia efeito real. Segundo documentos desacrados e revelados nesta semana, a empresa testou em 2023 uma versão não funcional da ferramenta "Algo Refresh", criada para permitir que usuários resetassem suas recomendações e escapassem de conteúdo indesejado ou potencialmente prejudicial.
De acordo com a ação, milhares de usuários acreditavam ter ativado o recurso, mas seus feeds simplesmente não mudavam — enquanto outro grupo, fora do experimento, tinha acesso à versão que realmente funcionava. Em um teste relacionado, iniciado em 2021, o TikTok teria retido um novo recurso de segurança de cerca de 10% dos usuários dos EUA, equivalente a aproximadamente 15 milhões de pessoas, para medir o impacto da mudança no tempo de permanência na plataforma e na receita publicitária.
O processo também cita um funcionário interno, gerente de produto da área de Bem-Estar Digital do TikTok, que teria questionado a prática à época, escrevendo que "esse recurso é sobre transparência e controle do algoritmo" e que "um grupo placebo entra em conflito total com isso." A ação ainda relaciona o experimento ao caso de um adolescente de 16 anos, de Nova York, que estava no grupo sem acesso ao recurso de segurança e morreu por suicídio em 2022 após consumir conteúdo sobre automutilação.
O TikTok nega as acusações. Em nota, a empresa afirmou que "continua fazendo melhorias em sua plataforma" e que, "como a maioria das empresas, testa regularmente novos produtos e recursos para validar a experiência e entender como funcionam no mundo real."
Quem é afetado
A ação de Nova York é uma entre mais de duas dezenas de processos movidos por estados americanos contra o TikTok, todos acusando a plataforma de ser projetada para estimular uso viciante entre crianças e adolescentes e de enganar o público sobre a segurança do aplicativo. O alvo direto são famílias nos Estados Unidos, mas o episódio reacende, também no Brasil, a desconfiança sobre a real eficácia dos recursos de controle e bem-estar oferecidos por redes sociais a usuários menores de idade.
O que fazer agora
Enquanto a Justiça americana apura o caso, pais e responsáveis podem adotar medidas práticas de proteção:
- Não confiar apenas nos botões do app: use o controle parental do sistema operacional (iOS ou Android) como camada adicional de supervisão.
- Conversar sobre o algoritmo: explique a adolescentes que o feed é moldado para prender atenção, não para o bem-estar deles.
- Acompanhar sinais de alerta: mudanças de humor, isolamento ou exposição a conteúdo sobre automutilação exigem conversa imediata e, se necessário, apoio profissional.
- Limitar tempo de tela usando ferramentas nativas do aparelho, não apenas as do próprio app.
- Denunciar conteúdo prejudicial diretamente às plataformas e manter prints como registro, caso seja preciso buscar orientação ou suporte.
A conversa aberta em casa continua sendo a proteção mais confiável — recurso que nenhuma empresa pode tornar "placebo".