
NYT Cooking testa IA para adaptar receitas e irrita assinantes
A editora sênior Genevieve Ko anunciou que o NYT Cooking, app de receitas do jornal americano The New York Times, está testando uma ferramenta de IA que sugere substituições de ingredientes e ajusta porções, mas a reação de leitores foi majoritariamente negativa.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Uma IA entra na cozinha do NYT Cooking
Pensa no NYT Cooking como aquele caderno de receitas de família que, de repente, ganhou um assistente digital opinativo. O aplicativo de receitas do jornal americano The New York Times está testando uma função de inteligência artificial que reescreve receitas sob encomenda: faltou espinafre, usa acelga; a receita é para quatro, mas você precisa para doze. A ferramenta foi anunciada pela editora sênior Genevieve Ko, que também é colunista do time de Cooking.
Até aqui, parece só conveniência. O problema é a letra fina — e os assinantes notaram.
O que o Times promete ter feito de dever de casa
Ko afirmou que a equipe "passou horas incontáveis avaliando amostra após amostra" das respostas do chatbot, comparando-as ao que um editor humano diria, "com o mesmo rigor que aplicamos à edição, fundamentado nos padrões do Times". Em bom português: eles treinaram e testaram o modelo para que ele imite o julgamento culinário da redação, não que ele invente livremente. A função está sendo liberada de forma gradual, primeiro para assinantes no iOS.
Por que uma parte do público não comprou a ideia
Nos comentários do anúncio, mais de 70% das reações foram negativas, segundo o Nieman Lab. Uma frase resume o clima: "Ninguém quer isso, é ruim para a cozinha, é ruim para o NYT." Em fóruns como o Hacker News, assinantes foram direto ao ponto: "A internet já está cheia de conteúdo de cozinha feito por IA. Eu pago vocês porque prefiro o meu feito por gente."
Outro temor é mais prático que filosófico — o risco de "alucinação", quando a IA erra dados e pode sugerir uma substituição que compromete o sabor ou, em casos extremos, a segurança do preparo. Perguntada se dava para desativar a função, Ko foi direta: "Não, não por enquanto", ainda que reforce que o recurso é "completamente opcional".
Dois lados, uma mesma mesa
De um lado, quem vê a IA como um atalho honesto — ninguém troca o chef por um algoritmo, só ganha flexibilidade para o que já tinha no armário. Do outro, assinantes que pagam justamente pela curadoria humana e temem que a mão de obra artificial dilua o que tornava o produto especial. A receita, nesse caso, ainda está sendo testada — e não só no fogão.