
NYT processa Brave por coletar dados para IA e burlar paywall
O New York Times e outros jornais dos EUA acusam o Brave de raspar conteúdo pago para vender a empresas de IA e de oferecer uma função que contorna paywalls. O Brave ainda não respondeu ao processo.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
O New York Times entrou com uma ação judicial contra o Brave, navegador conhecido por bloquear anúncios e proteger a privacidade por padrão, acusando a empresa de raspar matérias protegidas por paywall e revender esse conteúdo para treinar e alimentar ferramentas de inteligência artificial. Os jornais Daily News, Chicago Tribune e Orlando Sentinel entraram com uma ação parecida, e os dois processos tramitam na Justiça Federal de Manhattan, nos EUA.
Segundo a denúncia, o Brave mantém um índice com mais de 30 bilhões de páginas, coletadas por um robô que não se identifica publicamente — o que, segundo os jornais, torna quase impossível bloquear a raspagem. Esse acervo alimenta o Ask Brave, assistente de busca com IA da empresa, e também é vendido via Brave Search API a empresas como Anthropic, Perplexity, Mistral, xAI e Cohere. O processo cita ainda o Paywall Blocker, recurso do navegador que permite acessar conteúdo pago sem assinatura, e reclama que o Brave bloqueia os anúncios dos próprios sites de notícia enquanto vende publicidade própria.
Os jornais afirmam que já haviam enviado notificações extrajudiciais ao Brave em agosto de 2025 e abril de 2026, sem retorno. Agora pedem na Justiça indenização, restituição, pagamento de honorários advocatícios e uma ordem para que a empresa pare de copiar, distribuir e contornar paywalls do conteúdo. O valor exato da indenização não foi informado. Até a publicação desta matéria, o Brave não havia se manifestado oficialmente sobre o processo.
Quem é afetado
O caso envolve diretamente usuários do navegador Brave e do assistente Ask Brave, além de assinantes de veículos de notícia que usam bloqueadores de paywall. Também entram na história empresas de IA que compram dados via Brave Search API, já citadas no processo. Para o público em geral, o episódio reabre a discussão sobre até que ponto ferramentas de privacidade e produtos de IA generativa dependem de conteúdo de terceiros coletado sem autorização clara.
O que fazer agora
Não há vazamento de dados pessoais envolvido — o processo é sobre direitos autorais e modelo de negócio —, mas quem usa o Brave ou pensa em aderir a ferramentas de IA integradas ao navegador pode tomar algumas precauções:
- Revise, nas configurações do Brave, se o Ask Brave e o Paywall Blocker estão ativados e desligue o que não usa.
- Evite usar bloqueadores de paywall para acessar conteúdo pago: além da questão ética, o uso dessas funções está no centro da disputa judicial.
- Priorize assinaturas diretas em veículos que você quer apoiar, já que a receita de anúncios desses sites pode estar sendo reduzida pelo próprio navegador.
- Acompanhe o desenrolar do processo antes de confiar cegamente em respostas geradas por assistentes de IA embutidos em navegadores, já que a origem dos dados usados por eles nem sempre é transparente.
Atualização (03/11, 18:47): O New York Times elevou o tom contra o Brave, navegador baseado em Chromium conhecido por seu foco em privacidade e bloqueio de anúncios: o jornal exige que a empresa desative imediatamente o recurso que contorna paywalls e encerre os acordos comerciais mantidos com empresas de inteligência artificial. Segundo a ação apresentada na Justiça Federal do Distrito Sul de Nova York, o Brave possui uma configuração padrão que "contorna os paywalls dos sites e fornece conteúdo pago aos usuários" sem autorização dos veículos.
A exigência também atinge o modelo de negócios da Brave Search API, usada por empresas como Anthropic, Perplexity, Mistral, xAI e Cohere para treinar modelos de IA e responder consultas de usuários com conteúdo indexado pelo buscador do Brave — entre ele, segundo a ação, artigos do próprio NYT. O jornal pede que a Justiça obrigue o Brave a suspender essas práticas, alegando infração de direitos autorais direta, contributiva e vicária.
A ação, movida em conjunto com publicações como o New York Daily News, o Chicago Tribune e o Orlando Sentinel, afirma ainda que o Brave teria arrecadado mais de US$ 100 milhões ao copiar e revender conteúdo jornalístico protegido sem repassar compensação às editoras.