
O cemitério da IA: quatro fracassos que mostram os limites da bolha bilionária
Da reversão do 'super app' da OpenAI ao acordo de US$ 250 milhões da Apple por causa da Siri, uma lista crescente de projetos de IA que não vingaram expõe o descompasso entre investimento e retorno.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa
90%. É a fatia estimada de startups de IA que não sobrevive ao primeiro ano de operação, segundo dados de mercado levantados por consultorias do setor. O TechCrunch está compilando um "cemitério da IA" — lista viva de projetos e empresas que prometeram revolução e entregaram cancelamento. Quatro casos recentes resumem bem o tamanho do problema.
OpenAI reverteu o próprio 'super app'
Foto: reprodução/forbes.com
Em julho, a OpenAI, dona do ChatGPT, tentou unificar "Chat", "Codex" e "Work" numa única interface de super app. Usuários classificaram a mudança como "confusa e desordenada", e a empresa recuou pouco depois. No mesmo pacote de tropeços, o ChatGPT Atlas — navegador com IA embutida — foi descontinuado em agosto após menos de um ano de vida, e o Sora, plataforma de compartilhamento de vídeos gerados por IA, fechou em março citando custo operacional alto e retenção de usuários fraca.
Apple pagou para se explicar sobre a Siri
A versão turbinada por IA da Siri, prometida desde 2024 como peça central da Apple Intelligence, sofreu adiamentos sucessivos por bugs e problemas técnicos. O atraso rendeu à Apple um acordo de US$ 250 milhões, fechado em maio, por alegações de marketing enganoso sobre recursos que a empresa vendeu antes de conseguir entregar. A versão beta só chegou em julho, com lançamento completo em agosto — três anos depois da promessa original.
Startups menores, o mesmo padrão
O Humane AI Pin, dispositivo vestível movido a IA, levantou US$ 230 milhões antes de fechar em fevereiro de 2025 em meio a problemas de desempenho e alerta de risco de incêndio no carregador; seus ativos foram vendidos à HP por US$ 116 milhões — uma fração do capital captado. Já o Yupp, playground que chegou a comparar respostas de mais de 800 modelos de IA simultaneamente e havia levantado US$ 33 milhões com a a16z (uma das maiores gestoras de venture capital do Vale do Silício), encerrou em março sem nunca achar product-market fit.
Quem ganha e quem perde
Quem perde é evidente: fundadores, funcionários e investidores de apostas que queimaram capital sem achar demanda real, além da credibilidade do discurso de que "toda ideia com IA no nome" justifica avaliação bilionária. Quem ganha é mais sutil — plataformas incumbentes como o próprio ChatGPT, que absorvem funcionalidades de startups menores conforme elas fecham, consolidando ainda mais poder de mercado. Para o investidor, a lição prática é separar sinal de ruído: a taxa de mortalidade não invalida a tese de IA, mas expõe que a corrida por capital em 2026 premiou velocidade de lançamento acima de validação de produto — e a conta está chegando.