
O dia em que um Concorde correu contra a Lua para bater recorde de eclipse
Em 1973, um Concorde modificado com telescópios perseguiu a sombra da Lua a Mach 2 sobre a África e proporcionou a mais longa observação contínua da coroa solar já feita, 74 minutos de totalidade.
Por Redação tech & talk · Curadoria assistida por IA, revisão humana
Um avião supersônico contra a sombra da Lua
Em 30 de junho de 1973, o protótipo do Concorde, matrícula F-WTSS, decolou de Las Palmas, nas Ilhas Canárias, com uma missão fora do comum: perseguir a sombra da Lua durante um eclipse solar total. Pilotado pelo lendário piloto de testes André Turcat, o jato voou a Mach 2 — cerca de 2.200 km/h — e a 18.000 metros de altitude, acompanhando quase exatamente a velocidade com que a sombra lunar cruzava a superfície terrestre.
O resultado foi um recorde que permanece imbatido até hoje: 74 minutos de totalidade observada continuamente. Para efeito de comparação, um observador parado no solo, na melhor posição possível ao longo daquele mesmo eclipse, teria testemunhado no máximo 7 minutos e 4 segundos de escuridão total.
Um avião de passageiros virado laboratório voador
Para tornar a proeza científica possível, a cabine de passageiros do protótipo 001 foi praticamente esvaziada e transformada em plataforma de observação. Quatro claraboias especiais foram instaladas no teto da fuselagem para acomodar câmeras e telescópios apontados para o céu, permitindo que os instrumentos captassem a coroa solar — a tênue atmosfera externa do Sol, normalmente ofuscada pela luz solar direta e visível a olho nu apenas durante a totalidade de um eclipse.
A bordo estavam nove cientistas de instituições como o Observatório de Paris, o Laboratório Nacional de Los Alamos, o Kitt Peak National Observatory, a Queen Mary University of London, a Universidade de Aberdeen e o centro francês de pesquisa científica CNRS. Nomes como o astrofísico francês Pierre Léna lideraram os preparativos, iniciados ainda em 1972.
A rota pela sombra
Após decolar de Gran Canaria, o Concorde interceptou o caminho da totalidade sobre a Mauritânia com margem de menos de um segundo em relação ao planejado, seguindo depois sobre Mali, Nigéria, Níger e pousando em Fort-Lamy, atual N'Djamena, no Chade. Ao longo do trajeto, a equipe conduziu cinco experimentos simultâneos, incluindo o estudo de poeira na coroa externa do Sol, medições de oxigênio atmosférico afetado pelo eclipse, variações de brilho coronal e emissões infravermelhas da cromosfera solar.
Ciência histórica, mas de impacto limitado
Apesar da repercussão internacional e da proeza técnica, os próprios cientistas reconheceram décadas depois que os resultados científicos ficaram aquém do esperado. Léna chegou a comentar que os cinco experimentos funcionaram, mas nenhum revolucionou o entendimento sobre a coroa solar. Ainda assim, o feito continua sendo lembrado como um dos capítulos mais ousados da história da aviação supersônica aplicada à ciência — uma corrida contra o tempo, literalmente contra a sombra da Lua, que nenhum outro avião conseguiu repetir.
O F-WTSS, aposentado, está hoje exposto no Musée de l'air et de l'espace, na França, com um adesivo de eclipse em homenagem à missão.