
O eclipse de 1919 em Sobral que provou Einstein certo sobre a luz
Duas expedições fotografaram estrelas durante um eclipse total em maio de 1919 — uma delas em Sobral, no Ceará — e confirmaram que a gravidade do Sol desvia a luz, como previa a Relatividade Geral.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Um eclipse solar total dura, no máximo, poucos minutos — o suficiente para o disco da Lua cobrir totalmente o Sol e escurecer o céu em pleno dia. Foi numa dessas janelas curtas, em 29 de maio de 1919, que duas equipes de astrônomos britânicos tentaram resolver uma das maiores apostas científicas do início do século 20: saber se a luz das estrelas realmente se curva ao passar perto do Sol, como Albert Einstein previa na Teoria da Relatividade Geral, publicada quatro anos antes.
O que foi confirmado
Uma expedição, liderada por Arthur Eddington e Edwin Cottingham, foi até a ilha do Príncipe, na costa oeste da África. A outra, de Andrew Crommelin e Charles Davidson, foi a Sobral, no Ceará. As duas fotografaram estrelas próximas ao Sol durante o eclipse e compararam as posições registradas com imagens feitas em outra época, sem o efeito da gravidade solar no caminho da luz.
Segundo o físico Luís Crispino, da Universidade Federal do Pará, foram justamente as medições feitas em Sobral — com dois telescópios e mais fotografias que a expedição africana — que deram robustez ao resultado. Os dados de Eddington, baseados em só duas placas fotográficas com poucas estrelas, indicavam a mesma direção, mas precisavam de reforço. Juntos, os dois conjuntos de imagem mostraram um desvio da luz muito próximo do valor previsto por Einstein. O resultado foi apresentado em Londres em 8 de novembro de 1919.
O que ainda era hipótese — e deixou de ser
Na época, parte da comunidade científica questionou a precisão das fotografias de 1919, dado o equipamento disponível. Essa dúvida só foi encerrada décadas depois: o satélite europeu Hipparcos, que operou entre 1989 e 1993, mediu a posição de estrelas com muito mais precisão e confirmou que Einstein estava certo, com margem de erro de apenas uma parte em mil. O eclipse de Sobral segue como um dos raros casos em que uma observação astronômica feita no Brasil mudou o rumo da física mundial.